Encerrando esta série de textos saudosistas dedicados aos personagens que ajudaram a construir a memória cultural e intelectual de Poços de Caldas do século passado, volto a recorrer às preciosas lembranças e ao acervo de meu grande amigo, o historiador Roberto Tereziano.
Dessas conversas surgiram figuras simples na aparência, mas ricas em inteligência, talento e sensibilidade. Muitos deles frequentavam o tradicional Café Carletto, ponto de encontro de jornalistas, gráficos, escritores e amantes da literatura.
Entre os nomes lembrados está o de Carlos Monteiro (foto), ligado ao antigo jornal Gazeta do Sul de Minas. Mecânico de máquinas gráficas, linotipista e paginador, Carlos cultivava paixão pela poesia, demonstrando que, ao lado do barulho das impressoras, também pulsava uma alma literária.
Outro destaque era Gerson Alves de Moraes, igualmente da Gazeta do Sul de Minas, assim como seu irmão, Décio Alves de Moraes, fundador do Jornal da Mantiqueira. Ambos deixando seus nomes registrados na história da imprensa sul-mineira.
Na mesma mesa do Carletto estava também o tipógrafo Victor Gonçalves, conhecido carinhosamente como “Victor Prontidão”. Homem discreto, quase sempre preferia ouvir a falar. Atento às conversas sobre rimas, métricas e literatura, mantinha-se observador silencioso daquele universo cultural.
Figura de presença marcante era o tipógrafo, violonista e poeta Charles Rodrigues de Carvalho, irmão de Jacques, conhecido profissional do pronto-socorro da cidade. Charles tinha verdadeira admiração por grandes nomes da poesia brasileira.
Charles também deixou sua contribuição no teatro local. Foi diretor da primeira apresentação teatral de Tereziano, no monólogo O Navio Negreiro. Além disso, diagramou livros de escritores como Jurandir Ferreira, Milton Costa e Lino Belico.
Entre os frequentadores daquele ambiente estava ainda Laércio Martins, dicionarista e funcionário da Folha de S. Paulo, Laércio impressionava pelo vasto domínio da língua portuguesa.
Oficialmente, não havia mulheres integrando a chamada “Santa Ceia”. Vez ou outra surgia a escritora Benedicta Pires Duarte (Tite), colaboradora dos jornais locais, que assinava seus textos com o pseudônimo “Bepidu”. Passava rapidamente pelo café, trocava algumas palavras com os amigos e deixava sua presença registrada naquele reduto essencialmente masculino, mas profundamente apaixonado pelas letras e pelo jornalismo.
Vale lembrar que a saudosa Benedicta assinou durante vários anos uma coluna sobre gramática, intitulada “Pílulas gramaticais”, no Jornal Brand-News. Na coluna, a professora aposentada de Língua Portuguesa fazia uma completa revisão da nossa gramática, dando dicas e exemplos de incorreções mais frequentes, pegadinhas, vícios de linguagem e dificuldades ortográficas que muitas vezes confundiam e comprometiam o emprego correto da língua.