Há manhãs em que caminho pelo Parque José Affonso Junqueira com a nítida impressão de que Lurdinha ainda segue ao meu lado. Não a vejo, naturalmente. Mas sinto sua presença no silêncio das alamedas, no perfume das árvores e nas lembranças que insistem em florescer.
Enquanto caminho, deixo-me envolver por aquele lugar que tantas vezes percorremos juntos. Contemplo as árvores centenárias, o canto dos pássaros que parece atravessar o tempo, e permito que a memória me conduza aos dias mais felizes de nossa vida.
Quantas vezes caminhamos por aquelas mesmas vielas e pérgulas, conversando sobre os filhos, ou simplesmente desfrutando o privilégio de estarmos juntos! Éramos jovens, sonhadores, e sem perceber, construíamos uma família que se tornaria o maior patrimônio de nossas vidas.
Ao final da caminhada, era quase um ritual. Sentávamo-nos em um dos bancos diante da fonte luminosa, enquanto nossos filhos, sobre a plataforma de pedra que circunda a fonte, corriam despreocupados, brincando uns com os outros. Eram cenas simples, mas de uma riqueza inestimável.
Hoje, nas frias manhãs de inverno, refaço o mesmo percurso. Caminho sozinho, mas nunca completamente só. As lembranças caminham comigo. Às vezes, volto a ocupar o mesmo banco, diante da fonte, e permaneço ali por alguns minutos.
O tempo, porém, segue seu curso inexorável. Vieram as inevitáveis despedidas que a vida nos impõe. Lurdinha partiu, deixando um vazio que jamais seria preenchido.
Ainda assim, descobri que o amor não desaparece com a morte. Ele apenas muda de lugar. Ao caminhar, continuo tendo a doce impressão de que ela me acompanha, como sempre fez. E, por alguns instantes, o tempo parece recuar, permitindo que eu reviva, no coração, os mais belos capítulos de nossa história.