Nem tudo pode ser contado. Algumas lembranças merecem permanecer guardadas. Outras, porém, insistem em voltar, principalmente quando o assunto é o primeiro encontro, o beijo roubado, aquele que marca o início das descobertas do amor.
Naquele tempo, os jovens tinham seus próprios rituais. Aos sábados à tarde, ir ao Cine São Luiz era muito mais do que uma sessão de filmes: era um ponto de encontro para trocar olhares, sorrisos e iniciar romances.
Como acontecia todos os fins de semana, a Praça Pedro Sanches recebia o tradicional “footing”. Famílias passeavam tranquilamente, amigos conversavam, jovens desfilavam com suas melhores vestimentas e sorrisos, enquanto a banda, às vezes, parecia embalar silenciosamente os sonhos de cada um.
O encontro com Lurdinha foi nessa atmosfera de amor. Ela somente apareceu para mim quando, numa manhã de domingo, à porta do bar do Cine São Luiz, vislumbrei aquela que certamente seria a “mulher da minha vida”.
Ela caminhava ao lado de sua mãe. Passaram por mim, cumprimentaram-me com a delicadeza própria daqueles tempos e seguiram em direção à esquina do antigo Rex Hotel.
Quando voltavam, e passaram novamente onde eu estava, apresentei-me corajosamente. Seguimos caminhando, e conversando sobre aquele momento, e falei do sol que nos brindava com seu calor e seu brilho naquele domingo outonal.
Tornei-me - sem jamais o ser - um poeta feliz. Havia encontrado, finalmente, a minha deusa. E daquele momento em diante, jamais nos separamos. Até que, após sessenta anos, seus anjos vieram buscá-la, para enfeitar as festas que certamente acontecem no céu.
Do livro em preparação, “O Menino de Paranapiacaba”
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