22/02/2021 às 15h15min - Atualizada em 22/02/2021 às 15h15min

A BRONCA DO CRIPA

Marcos Cripa - Jornalista/ mcripa@uol.com.br
Solidariedade por um fio
 
Dentro de três semanas completaremos um ano do anúncio do confinamento como forma de reduzir a circulação em massa de pessoas e a consequente diminuição da transmissão do novo coronavírus no Brasil. Em outros lugares do globo a medida já vinha sendo implantada há mais tempo. Foi um baque, um choque mundial, principalmente porque as informações sobre a nova doença e os possíveis tratamentos eram desconhecidos. O mundo se fechou dentro de casa e a solidariedade ganhou contornos antes inimagináveis. Trabalhadores de setores essenciais, como saúde e coleta de lixo, eram aplaudidos; vizinhos que sequer se conheciam se dispuseram a ajudar uns aos outros. A solidariedade aflorou, dando lugar a relações fraternas. Passados doze meses e a descoberta de vacinas conta a Covid-19 nesse período, a solidariedade certamente ainda existe, porém em grau infinitamente menor.
 
Decepção
 
Nos primeiros meses da pandemia as mortes estavam distantes, em outras residências, mas já assustavam a todos. Atualmente, elas estão presentes na nossa própria casa e na casa de vizinhos, amigos e conhecidos. Lembro-me da angústia que foi acompanhar o anúncio da primeira morte comprovadamente causada pelo coronavírus no país, em Minas Gerais e logo depois em Poços de Caldas. Cada vida perdida, para muitos de nós, era sentida como se fosse um dos nossos. E do confinamento assistimos milhares de covas, muitas delas coletivas, sendo abertas pelo país afora. Fomos ainda obrigados a nos acostumar com uma nova forma de luto: à distância. E nessa confusão cheguei a acreditar que sairíamos da pandemia melhores que entramos; portanto, mais humanos. Pensava: quem sabe esse sofrimento todo, as incertezas e as perdas nos façam olhar para a sociedade de forma mais justa, mais igualitária, mais cheia de iguais; uma sociedade resiliente. Penso que me enganei.
 
A questão está no Versus
 
Embrenhados numa guerra na qual perdemos todos nós, a discussão central no Brasil nos últimos doze meses se restringiu à dualidade “economia Versus saúde”. Exatamente assim: uma contra a outra. Essa visão de embate é fruto da postura do governo federal que, sem projeto para o país, jogou mais para confundir do que para explicar e chegou a flertar com o obscurantismo ao indicar medicamentos sem a menor eficácia no combate ao novo coronavírus. A postura adotada pelo presidente da república é a grande responsável por essa visão limitada e obtusa, mas não somente ele. Outros atores também contribuíram para a crise chegar no atual estado de coisas que estamos metidos. Em um futuro não tão distante, parte dos governadores, dos prefeitos e dos empresários que investiram contra a quarentena também serão cobrados pela história.
 
Em política o muro é o pior lugar, sempre
 
O executivo de Poços de Caldas, por exemplo, tenta não desagradar os setores do turismo e comércio, caindo na cilada “economia versus saúde” engendrada pelo governo federal. Ao se comportar desta maneira, a prefeitura abre mão de implementar e consolidar políticas de acolhimento social. Ao agir assim, opta por distanciar-se da população menos favorecida, portanto mais necessitada e que precisa ser acolhida. A persistir nesse caminho o prefeito corre o risco de ser cobrado em breve caso uma das variantes da Covid-19 desembarque na cidade, causando lockdown similar ao enfrentado hoje na cidade de Araraquara. O que os gestores municipais precisam entender é que é possível dar atenção à economia, à saúde e às políticas de acolhimento social. Uma coisa não inviabiliza a outra, mas demanda a queima de neurônios. O muro, no momento, não é o melhor lugar.
 
União de esforços é possível?
 
O aumento nos números de mortos e infectados pela Covid-19 nas últimas semanas em Poços é alarmante e até aqui nenhuma explicação convincente foi dada pelas autoridades. Será que alguém vai querer nos convencer de que o vírus está se propagando trazido pelos ventos que sopram de outras regiões em direção à Serra da Mantiqueira? Ou será que a prefeitura acredita, de fato, que se combate à disseminação do vírus utilizando drone para enxergar o problema lá de cima? É certo que o drone tem lá a sua utilidade, mas o problema está cá embaixo, no dia a dia da cidade. Está na circulação e aglomeração de pessoas, está nos bares que têm se transformado em portas abertas para a disseminação do vírus, está nas pessoas que já não cumprem as regras de distanciamento social e uso do álcool em gel, e está também no transporte coletivo que registra excesso de passageiros nos horários de picos. Claro que sei que os ônibus da Circullare desde a semana passada (observe: quase um ano depois do surgimento do coronavírus na cidade) são desinfectados a cada viagem, segundo a própria empresa. Pois então que limpem os veículos a cada viagem e coloquem mais carros à disposição para que se mantenha o distanciamento social dos usuários. Vai custar mais à prefeitura e à empresa? Vai, que assim seja em benefício da coletividade. 
 
Triste realidade
 
A continuar no modelo atual, logo a prefeitura terá de voltar a implantar barreiras sanitárias nas principais entradas de acesso da cidade, a exemplo do que ocorreu em um passado recente. Apesar de o Boletim diário do Grupo de Acompanhamento não ter tornado público, a ocupação de leitos públicos destinados aos pacientes com Covid chegou ao índice de 77% durante a manhã de um determinado dia. O índice divulgado à noite foi menor devido ao número de mortes ao longo do dia. As mortes, evidentemente, possibilitaram a abertura de leitos.
 
Autocritica é fundamental
 
Recentemente um amigo, com quem eu avaliava pelo telefone esse primeiro ano da pandemia e seus desdobramentos no Brasil, me perguntou o seguinte: “Mesmo com a descoberta de inúmeras vacinas, a situação parece que não avança e indica que vai piorar. De quem é a culpa?” De pronto respondi: “É do negacionista Jair Bolsonaro que fala o tempo todo em armar a população, investe em medicamentos sem comprovação no combate ao coronavírus, incentiva aglomerações e não respeita regras sanitárias, desdenhando também das vacinas comprovadamente eficazes. Ah, e também daquele que nele votou”. Vale lembrar que, em 2018, Jair Bolsonaro recebeu 68,49% dos votos para presidente em Poços de Caldas. Diante do desastre que tem sido o governo dele e do descaso do presidente em relação à sociedade, torço para que esse eleitorado reflita e faça autocrítica. Já passou da hora.
 
 
 



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