09/06/2021 às 16h13min - Atualizada em 09/06/2021 às 16h13min

Estamos sendo vencidos, perdemos todos

Marcos Cripa - Jornalista/ mcripa@uol.com.br
Figura meramente ilustrativa - Reprodução Google
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O conflito está estabelecido; a divergência nacional chegou ao nosso quintal. Nas redes sociais tem proprietário de bar e restaurante postando fotos do centro de Poços de Caldas para mostrar a quantidade de pessoas nas ruas, insinuando que o contágio vem da aglomeração, o que é verdade. De outro lado, inúmeras pessoas estão reclamando, também nas redes sociais, de bares e restaurantes lotados, o que também é verdade.
Com esse tipo de embate, perdemos todos. Estamos sendo vencidos não só pelo vírus, mas também pela falta de empatia coletiva. Parte da população insiste em procurar culpados entre os iguais esquecendo-se de cobrar eficiência dos governantes que, muitos deles, contribuíram para eleger. As mesmas autoridades que negaram até agora o direito de todo cidadão ser vacinado rapidamente, refiro-me ao governo federal, e as que se omitem diante da realidade do descontrole da contaminação na cidade, refiro-me ao governo municipal.
Poços de Caldas está há quase um mês com 100% dos leitos covid ocupados e mantendo uma lista de espera diária entre 7 e 10 pacientes. E o que o prefeito Sérgio Azevedo (PSDB) faz? Nega-se a aceitar medidas restritivas estabelecidas pelo governo estadual, mesmo sabendo que implantar um novo leito aqui e outro acolá não irá resolver a questão. Ampliar os atendimentos é bom, mas não elimina o problema. Além da vacina e da atenção médica, a doença é controlada também com restrições ao funcionamento de todo estabelecimento não essencial. Focado apenas no número de leitos e de mortos, esquece o mandatário poços-caldense que só se conseguirá desocupar leitos e atenuar o número de mortos quando diminuir o contingente de infectados. Para isso, no entanto, é preciso coragem para enfrentar empresários e comerciantes, coisa que o prefeito e sua equipe não têm feito por medo ou insensibilidade. De acordo com um peessedebista com acesso ao gabinete do prefeito, ele se sente pressionado por comerciantes e empresários e teme desagradá-los com medidas restritivas.
 
É verdade que o poder do político está na caneta. Com apenas uma assinatura ele nomeia ou destitui pessoas ou autoriza a realização de obras ou ações que podem render dividendos políticos. É assim que o político se comporta na normalidade. Mas não estamos vivendo na normalidade. Um vírus nefasto está matando e contaminando nossos entes queridos. E pode ser que, com essa mesma assinatura o prefeito de Poços de Caldas evite um contágio maior e, consequentemente, a redução no número de mortos. Basta assinar decreto com medidas restritivas, como tem sido feito por centenas de outros prefeitos pelo país afora. Entendo que ele fique dividido entre a economia e a saúde. O fato de entender, porém, não significa que eu aceite sua omissão diante da catástrofe que estamos enfrentando. Para que resguardar a economia se corremos o risco de não existirem consumidores no futuro? Por mais dividido que pessoalmente ele esteja, resguardar a vida é o mais importante. Mas ele prefere esconder-se e permanecer omisso encastelado na sede da prefeitura assistindo o sistema de saúde da cidade entrar em colapso.
 
Espanta-me, também, o posicionamento do secretário de Saúde, Carlos Mosconi, médico e ex-deputado Constituinte que ajudou a formular a proposta e a construir o SUS (Sistema Único de Saúde). Ele pode até negar publicamente, mas sabe que a solução para o momento é conter a propagação do vírus e que isso só se consegue com medidas restritivas. Mas se Mosconi tem consciência disso, por que não as implanta convencendo o executivo a agir da forma correta? Se não tem força dentro do governo, deve “pedir o boné” em nome da sua carreira médica e da sua história política. Se concorda com o prefeito, é tão omisso quanto ele, coisa que custo a admitir. Ainda há tempo de se evitar a derrocada da saúde. Basta ter iniciativa e coragem para enfrentar a situação, sob pena de não o fazendo, carregar nas costas a responsabilidade de não ter se posicionado claramente diante de quadro tão grave e assustador.
 
Não há como negar o conhecimento das autoridades municipais quanto ao descontrole no aumento de infectados e no número de mortos ocorrido na cidade, que já ultrapassa 550, muito embora a secretaria de Saúde diga que é menos porque ela separa mortos da cidade com pessoas de fora do município. Escarnio do governo municipal é separar os mortos entre residentes e não-residentes para atenuar os números. Tanto esse é o objetivo da prefeitura que no Boletim Epidemiológico Covid-19, divulgado diariamente, o número de mortos de cidadãos residentes na cidade vem no alto do gráfico e os da região ficam escondidinho na parte inferior, identificados como “óbitos não-residentes”.  O governo de Poços age como se nosso sistema de saúde não pertencesse ao SUS. Não entendem seus ocupantes que não existe distinção entre mortos. Todos foram derrotados pela mesma doença, pela mesma pandemia e todos os que foram a óbito deixaram pais, esposas, filhos, netos e netas e amigos, sejam de Poços ou de fora da cidade. É muita crueldade fazer essa distinção.
Também é crueldade ignorar que os profissionais da saúde na linha de frente contra a covid-19, público e privado, estão literalmente esgotados; muitos voltaram ao trabalho depois de serem infectados e tratados, outros morreram no combate ao coronavírus. Um desses profissionais contraiu a doença duas vezes; hoje encontra-se internado.
 
Veja se o quadro é ou não estarrecedor:
Mãe e filho foram internados em hospitais diferentes para serem tratados devido a contaminação da covid. O médico encarregado de monitorar um segundo filho da família, que estava em casa assintomático, conversava com o jovem através do celular com o propósito de avaliar qualquer possibilidade de ter aparecido sintomas. Nesse momento o filho assintomático pediu licença ao médico para atender o telefone fixo. Voltou tempo depois desesperado e chorando com a notícia do óbito do irmão. Ambos desmoronaram, um choque para quem perdeu o irmão e ainda se encontrava com a mãe no hospital e para o médico diante da situação.
E pensar que, diante de tamanha gravidade ainda tem comerciante procurando atribuir a culpa à população que sai às ruas e parte da população tenta responsabilizar os comerciantes e empresários. Não era para estarmos vivendo conflito dessa magnitude. A impressão que tenho é de estarmos perdendo a sensibilidade humana. Espero estar errado, mas parece que não. O próprio Conselho Municipal de Saúde (CMS), que representa os usuários do SUS, publicou artigo na edição de hoje (9/06), do jornal Folha Popular, afirmando que 90% dos conselheiros estão descontentes “com a forma insegura que a administração da saúde poços-caldense vem reagindo aos casos da covid”. O texto atribui ao executivo municipal a quantidade de pessoas circulando pelas ruas e praças da cidade, bem como pelos bares e restaurantes estarem superlotados. O CMS defende entusiasticamente a adoção de medidas restritivas, conforme foram estabelecidas pelo governo do Estado.
 
Como disse recentemente nesse espaço, diante de quadro tão desalentador só nos resta rezar, orar, bater tambores e incorporar. Perdemos todos. Que Deus proteja a todos.
        






 

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