22/10/2021 às 14h07min - Atualizada em 22/10/2021 às 14h07min

“Domingo é dia de festa”

Por Odair Camillo - Jornalista

Da saudosa época do Country Clube, do Coreto da Praça Pedro Sanches e da A. A. Caldense, quando disputava o “Torneio da Morte”
 
“O termômetro assinala neste momento na Praça Pedro Sanches, 28 graus à sombra nesta manhã ensolarada de domingo”, anuncia o locutor de uma rádio local.
 
Ainda meio zonzo - resultado de uma chopada do dia anterior -, penso estar sonhando, ou, quando muito, ouvindo outra emissora, jamais a de Poços de Caldas, uma cidade que sempre se caracterizou pelo seu clima e temperatura amenos.
Mas, aos poucos vou-me conscientizando da realidade e da minha própria situação na cama, quase nu, transpirando, e os raios solares adentrando em meu quarto. Sobre o criado-mudo, a minha agenda de jornalista aponta um compromisso logo cedo: a inauguração do Centro Comunitário São Vicente de Paulo.
 
“Puxa vida! Bem que o Paiva poderia ter marcado essa solenidade para amanhã”, resmungo, pensando no desperdício, quando poderia jogar uma partida de tênis, tomar uma cerveja e ainda apreciar com olhos gulosos, mas discretos, as belas garotas estendidas sobre vistosas toalhas à beira da piscina do Country Clube, bronzeando-se aos raios do astro-rei.
 
Lamento mais uma vez a bendita profissão, enquanto preparo-me para enfrentar o compromisso. Quando já estou de saída, Lurdinha, lá do quarto, num tom quase imperativo, adverte: “Vá de moto que eu vou de carro com as crianças para a Praia do Sol”. “Tá bem”, respondo, a princípio vacilando, mas depois até gostando da ideia.
“Parece ser uma boa ir ao bairro São José de motoca”, penso comigo, porém preferindo que a moto fosse modelo “cross” para enfrentar tanta terra e buraco no caminho.
 
Depois de muitos trancos e barrancos, chego finalmente são e salvo à pequena praça, que já se encontra abarrotada de veículos, na maioria pertencente às autoridades políticas que sempre se fazem presentes nessas ocasiões, aproveitando-se da oportunidade para se mostrarem e de se autopromoverem.
 
O salão já se encontra literalmente tomado. Dezenas de pessoas assistem à missa, seguindo-se o descerramento das placas. Justas homenagens são tributadas aos vicentinos - esteio de nosso sofrido povo -  e às pessoas abnegadas que possibilitaram a construção da nova obra.
 
O calor é intenso. Mal aguento ouvir o primeiro discurso de improviso, onde o orador se perde em meio a tantas homenagens. Surge então a oportunidade de escapar daquele local quando o orador pronuncia finalmente as duas últimas palavras mais aguardadas de qualquer peça oratória: “Tenho dito!”
Antes que se anuncie o próximo, já estou do lado de fora do prédio, enfim respirando. O retorno para casa decorre normalmente.
 
Agora são 16h. Encontro-me no Estádio Dr. Ronaldo Junqueira, inteiramente desmotivado, cumprindo mais um compromisso jornalístico. A Associação Atlética Caldense, desprestigiada, que está disputando o Torneio da Morte, para não ser rebaixada, não consegue trazer para o estádio a sua gloriosa torcida. A maioria dos que ali se encontram, parece ser do clube visitante, o Paraisense. A pelada inicia. Logo no primeiro minuto a surpresa geral. “Gol”, explode o narrador da contenda. Logo em seguida surgem os outros, completando o placar de 8 a 0. Acontecimento inédito. E penso comigo: “Safados são esses profissionais que agora acharam de marcar todos os gols em cima dessa pobre agremiação”.
 
Agora já é noite. Parece que todos desistiram de assistir ao “Fantástico” ou a “Hebe” para se unirem ao redor do Coreto da Praça Pedro Sanches para ouvir as saudosas músicas do Maestro Ataulfo. Aos primeiros acordes, vários casais locais e turistas começam a dançar. Sinto, também vontade de participar da dança, e arrisco um convite à esposa que me faz companhia, embora já sabendo da “tábua” que ela certamente vai dar:
“Madame, me dá a honra desta contradança?”, peço com a maior gentileza.
 
“Nem morta!”, responde ela. “Você está me achando com cara de coroa?”

Abaixo a cabeça, constrangido, e lamentando comigo mesmo estar ainda muito jovem, volto para Lurdinha e faço mais um gentil convite:
“A garota aceita então dar uma voltinha de motoca?”
Não precisa nem dizer a resposta, para este final feliz num domingo de festas...
 
Do livro “Crônicas em Concordata”, Novembro de 1980, com ilustração de Edilson Elio Barbosa

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