15/10/2021 às 16h07min - Atualizada em 15/10/2021 às 16h07min

Livre para Voar

Por Odair Camillo - Jornalista
Ilustração - Daniel Pereira Marques
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O núcleo de novelas da Rede Globo produziu em 1984, em Poços de Caldas, a novela “Livre para voar”. No último mês, profissionais da emissora estiveram na cidade para algumas tomadas de cena da nova novela das 18h, “Além da Ilusão”, que estreia em fevereiro de 2022 e terá a cidade como cenário inicial da trama ambientada nos anos 30.
Na época, escrevi uma crônica que resgata, de maneira jocosa, minha “vontade” de me tornar um artista.
 
Francamente, já estou começando a desconfiar que melhor seria ter trocado a profissão de jornalista pela de ator de telenovela, tal o sucesso que fiz numa das tomadas de cena em que participei na recém iniciada novela global.
Aliás, o que há de novos artistas circulando pela cidade, é de espantar até ao próprio diretor Wolf Maya. Ainda bem que ninguém vai receber um cachê, se não o Roberto Marinho teria que pedir concordata.
Até minha sogra, vejam só, com seus quase oitenta anos, fez questão de participar de uma cena no interior de uma loja da cidade, mesmo sabendo que seria filmada de costas e sem a mínima possibilidade de ser reconhecida.
Agora, quanto a mim, foi um caso muito interessante.  Dirigia minha moto pela avenida Francisco Salles, descontraidamente, logo atrás de outro motociclista, quando percebi que o mesmo estava sendo filmado pela equipe de cinegrafistas da Globo que seguia logo à frente, sobre uma camionete.
Sem qualquer intenção de querer aparecer, simplesmente dei uma ajeitada nos meus fartos cabelos loiros, tendo para isso que largar das mãos, emparelhei ao lado do artista e deixei a moto correr em frente às câmaras.
Só não entendi a atitude de um dos membros da equipe que ao ver-me passar, arregaçou as mangas da camisa, levantou o braço e disse quase esbravejando: “Passa mais tarde no hotel, seu.... Nós vamos acertar as contas!  Surpreso com tal inusitada maneira de contratar um astro, respondi-lhe afirmativamente com um aceno de mão. Acontece que até hoje não consegui encontrar-me com esse cara...
 
Depois dessa “promessa” de me incluírem, com justiça, diga-se de passagem, no staff global, com a possibilidade de contracenar ao lado da Carla Camurati, várias transformações têm ocorrido no meu dia a dia.
Pra começar, organizei um cronograma de preparativos para melhorar o meu visual, que já não estava lá essas coisas. A primeira providência está sendo a prática de meia hora de ginástica pela manhã, e logo em seguida um cooper no Jardim da Luminosa, atrás do Palace Hotel, onde está hospedada toda a equipe, na expectativa de queimar algumas calorias que já se evidenciam e, principalmente, na esperança de ser visto pela atriz, que numa destas manhãs gostosas de primavera, bem que pode aparecer à sacada de seu apartamento, tal qual uma “Julieta Shakespeariana”  e convidar este pobre “Romeu” para entrar e, juntos traçarmos um novo rumo à novela das seis, colocando o Pardal para escanteio.
 
Não que eu tenha qualquer discriminação ou inveja do Tony Ramos, pelo amor de Deus! Acho até que ele é um bom ator, e bem mais peludo que eu, mas sinceramente a Globo tem necessidade urgente de renovar seu núcleo artístico, que são sempre as mesmas figuras.
Logo após o almoço você assiste a uma novela em reprise. À tardinha você vê os mesmos artistas em outra série e, às vezes surgem os mesmos no horário nobre. Dá até para confundir a cuca.
Se acaso os ilustres diretores da rede plim plim estiverem de fato interessados em dar uma balançada no coreto novelístico da emissora, é só me contratar.
 
Embora minha sogra tenha cortado as minhas asas logo que me amarrei na sua filha Lurdinha, há longos anos, creio que elas já cresceram o bastante para me deixar, daqui pra frente, livre para voar!
                                 
Do livro “Crônicas em Concordata” - Novembro 1984
 
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