27/08/2021 às 14h50min - Atualizada em 27/08/2021 às 14h50min

Estrasburgo, a cidade francesa que não estava nos nossos planos de viagem

Por Odair Camillo - Jornalista
FOTOS: Reprodução Google

Já tínhamos ouvido falar das belezas da região da Alsácia, com suas centenárias edificações de madeira e de balcões floridos, palácios e monumentos, sua gastronomia exuberante e de seus vinhos nobres. No entanto, nossa primeira visita à região deu-se de maneira inusitada, e sem qualquer planejamento.
Chegamos numa manhã de novembro de 1999 à Hauptbahnhof, Estação Central de Zurique, vindos de Lausanne, e nos dirigimos ao Rutli Hotel, localizado na Zahringerstr 43, hospedagem gentilmente oferecida pelo departamento de Turismo daquela cidade, onde passaríamos três dias ciceroneados por um guia local, com a incumbência de nos mostrar e informar tudo sobre a bela cidade suíça, que seria transformada em matéria turística no jornal.
 
“Acidente de Percurso”
 
Porém, quando nos dirigimos ao hotel e fazíamos o check-in, o recepcionista nos informou que a nossa reserva não era para aquela data, e que a mesma estava agendada para dois dias após, e que lamentava também não ter um quarto disponível naquele momento.
Diante dessa situação, disse-lhe que mantivesse a reserva, que voltaríamos na data certa. Foi quando percebi que houve um “acidente de percurso”, um pequeno descuido na minha agenda e havíamos antecipado nossa chegada naquela bonita cidade.
Voltamos à Estação Central, que era muito próxima dali e, com uma rápida olhada no enorme quadro de informações sobre as chegadas e partidas dos trens, verifiquei que dentro de uma hora sairia um deles para Estrasburgo, na França, cuja viagem tinha a duração de aproximadamente uma hora.
Não pensei duas vezes. Testando minha aptidão como “jornalista globetrotter” e sabendo que Lurdinha também aprovaria a escolha, fomos até o guichê e compramos dois bilhetes de segunda classe que ainda estavam disponíveis.
Uma hora depois, desembarcávamos na Gare Centrale de Estrasburgo, a bela “capital da Alsácia”.
 
Localização privilegiada na Europa
 
Para quem chega de trem de Paris, Estrasburgo fica a apenas duas horas de distância. A cidade também está cerca de três quilômetros da fronteira com a Alemanha e tem um porto especial para cruzeiros pelo Reno.
Nem bem havíamos deixado nossas malas no hotel, em frente à estação, já estávamos a caminho da belíssima Catedral de Notre Dame, cuja torre única era vista sobre os telhados dos prédios próximos. Com 142 metros de altura, sua construção foi iniciada em 1439 e concluída em 1880, e foi, por muitos anos, a igreja mais alta do mundo. Seu interior é repleto de detalhes e é lá que está o Relógio Astronômico (L’horloge Astronomique), decorado em estilo do Renascimento que data do século 16.
Uma curiosidade desse relógio (de 18 metros de altura) é que todos os dias, às 11h30, a igreja é fechada e, após a exibição de um filme sobre o funcionamento e toda a história do relógio, ele começa a exibir, uma hora depois, várias figuras (apóstolos passando em frente ao Cristo), com som e movimento sincronizado. Personagens diferentes representando as idades da vida, desde uma criança até um homem velho, paradas diante da morte. Porém, apenas quem pagou ingresso pode ver o espetáculo. A narração é feita em francês, inglês e alemão.
 
Estrasburgo é sede do Conselho da Europa e do Parlamento Europeu, ocupando uma posição estratégica na Europa. A cidade, que mudou de nacionalidade cinco vezes, tem seu coração dividido entre Alemanha e França. Seus habitantes são bilíngues, as placas de sinalização e cardápios dos restaurantes são escritos em francês e alemão.
A cidade tem raízes fortes nessas duas culturas. Por isso, parte de Estrasburgo, que tem aproximadamente 400 mil habitantes, assemelha-se a uma cidade francesa, com padarias e lojas de flores que enfeitam ruas estreitas e sinuosas, como também a uma cidade alemã, com suas típicas construções empregando uma técnica especial, com vigas de madeira aparentes, conhecida como enxaimel.
 
Um dos ícones da cidade é a Tanners House, que foi transformada em restaurante em 1949, sendo conhecida como La Maison de la Choucroute, que serve a autêntica cozinha alsaciana. Essa área é formada por diversos bulevares, e surgiu em fins do século 19, quando houve disputas que motivaram várias guerras, como a dos Trinta Anos.
 
No bairro Petite France as construções datam dos séculos 16 e 17, e são um patrimônio mundial único quando falamos em arquitetura. O bairro é formado por ruelas estreitas e canais navegáveis de onde observamos casinhas com janelas floridas, sendo uma das áreas mais históricas e onde residiam os artesãos.
Ali está a barragem Vauban e as torres da antiga ponte coberta, onde se concentra uma série de atrativos turísticos, que vão se sucedendo à medida que se começa a caminhar.
O Palais de L´Europe, o Palais de Rohan, a Maison Kammerzell e o Museu Alsaciano estão quase todos localizados nessa área da cidade.
 
No século 14, o vinho fazia parte do tratamento dos pacientes no hospital
 
Ainda no bairro Petite France, há uma adega secular, a Cave des Hospices, localizada na ala histórica de um moderno complexo médico onde milhares de garrafas com o rótulo do hospital são comercializadas numa loja subterrânea. Segundo os historiadores, no século 14 o hospital aceitava vinhas como pagamento de pacientes que não podiam pagar a conta com dinheiro. Os monges carmelitas que cuidavam dos enfermos eram responsáveis pelas videiras e o hospital chegou na época a prescrever aos pacientes, até dois litros da bebida por dia.
 
A cidade conviveu com muitas guerras
 
Em 1871, quando foi derrotada pelos alemães, a França cedeu o território ao seu tradicional inimigo, só retomando-o em 1919, com a vitória dos aliados na I Guerra mundial. A Alsácia permaneceu francesa até 1940, quando as forças do III Reich invadiram a França e tomaram-na. A retomada francesa ocorreu pouco depois, em 1945. Desde esta data, a região pertence à
França.
Todos esses conflitos tiveram como motivo a importância dessa região, porque é uma zona estratégica perto do rio Reno, que atravessa seis Países (Suíça, Áustria, Liechtenstein e Países Baixos, além da França e Alemanha) e deságua no mar do norte. A Alsácia é uma das províncias francesas mais ricas e de extrema importância política e econômica, lembrando que em Estrasburgo está a sede do Parlamento europeu.
Por tudo isso, ela possui hoje uma forte identidade cultural, às vezes francesa, às vezes alemã, o que torna a visita a essa belíssima região, uma experiência extremamente rica e curiosa. Estrasburgo orgulhosamente se mostra como um exemplo da unidade europeia.
 
Novembro 1999
 
 
 
Estrasburgo é uma cidade pequena, mas cheia de charme, com características francesas e alemãs.
A área com os canais é conhecida como Petit France. Aí encontramos uma série de atrativos turísticos, como a Catedral de Notre Dame, O Palais de L’Europe e o Relógio Astronômico do século 16 (que funciona até hoje), o Palais de Rohan, as pitorescas Pontes Cobertas, a Maison Kammerzell e o Museu Alsaciano

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