23/08/2022 às 15h35min - Atualizada em 23/08/2022 às 15h35min

Entrevista ou Inquisição?

Foto: Reprodução Google
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Para quem tiver a paciência de ler esse artigo, enfatizo que o objetivo não é analisar o desempenho do atual presidente e candidato a reeleição, Jair Bolsonaro, na entrevista concedida nessa segunda-feira, 22, à Rede Globo, para não cair na vala das “torcidas” contra e a favor existentes no atual “campeonato eleitoral”.
Como professor de jornalismo e profissional com alguns “quilômetros” percorridos nas “rodovias” da comunicação e, sem a pretensão de esgotar o assunto, pretendo apenas opinar “tecnicamente” sobre o programa.
 
Assim, a ideia da Globo de aproveitar a audiência do Jornal Nacional, associado à experiência dos entrevistadores Wiliam Bonner e Renata Vasconcelos, pode ser considerada uma “faca de dois legumes”, na aposta duvidosa de colocar em risco a credibilidade dos profissionais e da própria emissora. Provavelmente, não serão poucos aqueles que estão hoje, não importando a opção política, condenando o desempenho de ambos.
 
Um outro risco que a emissora correu foi realizar o sorteio para determinar a ordem das entrevistas, indicando o atual presidente como o primeiro entrevistado e que teve uma consequência direta. Se por um lado fez aumentar a audiência, por outro, fez com que a responsabilidade da condução do primeiro programa fosse ainda maior. Assim, se a primeira entrevista fosse com um candidato ou candidata de menor expressão, os entrevistadores iriam se “aquecer” e determinar o rumo para as outras entrevistas de maior alcance midiático.
 
Mas, há um outro aspecto mais importante a considerar.
Entrevista não é inquisição e nem um tribunal onde os entrevistadores fazem perguntas buscando a culpa ou a inocência do entrevistado. Para isso existe outro formato: o debate, como o programa “Roda Viva”, realizado com sucesso há 35 anos pela TV Cultura. Claro que isso pode aumentar a audiência, pois, a população, dizem, “quer ver o circo pegar fogo”.
Porém, a opção jornalística de “provocar” o entrevistado com acusações é uma “areia movediça”, principalmente, se o entrevistado estiver preparado e responder com a “linguagem do povo” às “acusações da promotoria”.
 
Ao colocar candidatos no “tribunal”, a Globo é que passou a estar sob “julgamento” em relação aos próximos entrevistados. Ou segue a mesma linha de condução das entrevistas, sendo alvo de críticas, ou perderá ainda mais a credibilidade ao colocar em risco, mais uma vez, a isenção jornalística da emissora.
Resumindo, se correr o bicho pega e se ficar o bicho come.
 
Para não estender mais ainda o assunto, a Rede Globo acertou “no quê” e se equivocou no “como”. Poderia ter escolhido outro horário e outros apresentadores para não comprometer por demais os profissionais citados e a própria emissora.
Contudo, o que mais importa talvez seja a receita financeira obtida e não a fiança paga no risco da perda da credibilidade jornalística. Se for somente por esse aspecto e, considerando o momento vivido pela TV brasileira, a emissora está totalmente absolvida.
 
Por Wiliam de Oliveira - jornalista e apresentador
E-mail: [email protected]

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