17/08/2022 às 15h12min - Atualizada em 17/08/2022 às 15h12min

17 de Agosto: Dia do Patrimônio Histórico

FONTE: Assessoria de Imprensa Instituto Presbiteriano Mackenzie - FOTOS: Reprodução Google
Estátua em homenagem ao bandeirante Borba Gato: polêmica estética
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O que teríamos a dizer sobre o Patrimônio Histórico atualmente?

O que faz sentido como memória que conta nossa história e possui as vozes que significam pertencimento do nosso território, de nossas cidades, de nosso lugar no mundo, que falam com a nossa alma e dizem quem somos?

Olhar para as nossas cidades com seus marcos diz muito sobre nosso passado, significa de maneiras distintas cada um dos monumentos que possuímos, quais pontos de vista revelam sobre a história e, sobretudo, significa de maneira indireta toda história que não está representada. O silêncio fala!

A noção de patrimônio tem sido alterada ao longo do tempo, podemos citar propostas arrojadas como as de Mário de Andrade (foto), que provocaram intensas críticas no início dos anos 30 ao propor em suas ações olhar para as manifestações culturais brasileiras. Especialmente ao descortinar, em suas viagens etnográficas, com olhar curioso de turista aprendiz em busca de sua própria brasilidade, os rincões que a maioria das elites da época desejava esconder.

Muitos de seus registros e coletas fazem parte de um acervo precioso que conta a história de parte de nossa ancestralidade, de manifestações culturais de nossas raízes múltiplas. Ele fez registros importantes com os recursos disponíveis na época, foi capaz de registrar em pequenos filmes cantigas, danças, coletou artefatos que representam o tangível e o intangível das raízes mineiras, nordestinas e nortistas. Desafiou olhar para dentro de nossas entranhas.

A metamorfose sobre o significado do que é patrimônio tem se intensificado nas últimas décadas. O arquiteto Carlos Lemos apontou para questões cruciais a serem observadas como relevantes de nossa memória, a composição do patrimônio a partir de perspectivas distintas, buscando o que é significativo e peculiar para uma sociedade múltipla.

Movimentos que têm eclodido no mundo todo vêm estabelecendo uma conexão com o cotidiano da população a partir da consciência conquistada pelas denominadas minorias, que passaram a entender que muitos dos marcos instituídos contam apenas um lado da história, geralmente dos conquistadores, grandes vultos escolhidos para enaltecer perspectivas hegemônicas da história.

Durante os últimos anos, pode-se observar ataques a monumentos, no entanto é necessário ponderar a respeito. Mesmo diante de um marco que revela uma história dolorosa, é preciso mantê-lo para recontar essa história através da tensão gerada pelo antagonismo. Um exemplo desse fato foi o ataque à estátua do bandeirante Borba Gato, em São Paulo. Seria importante manter a estátua lá, mas ao lado criar um significativo marco indígena para ressignificar a história de indígenas e bandeirantes. Dissonâncias significadas são mais efetivas do que novos apagamentos.
 
Hoje, nos deparamos com vestígios de memórias perdidas em todo país, destacamos o cais do Valongo, marco carioca, os artefatos que remetem ao território negro encontrados nas escavações do metrô paulistano no bairro do Bexiga, o material arqueológico da comunidade do Pilar em Recife, entre outros tantos que emergem do esquecimento em nosso país.

É importante ressaltar que essas memórias dispersas só ganharam atenção e são ressignificadas na medida em que a população atribui um sentido, deseja manter sua existência, luta por fazer parte da história e contar o seu ponto de vista, esse é o sentido de patrimônio histórico e cultural, aquele que suporta o antagonismo.

Esse tensionamento é que temos de pensar como posição social diante dos marcos da cidade. O que significam e para quem significam os marcos que possuímos e de que maneira podemos, a partir de uma nova perspectiva, gerar outros significados e recontar a nossa história.

Ainda espero ver um grandioso manto tupinambá como marco da antropofagia da nossa brasilidade, que devora e ressignifica!

 
Por Ingrid H. Ambrogi - Docente no Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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