03/03/2022 às 15h13min - Atualizada em 03/03/2022 às 15h13min

A longa estrada da morte

FONTE: Carlos Brickmann - FOTO: Reprodução Google
Figura meramente ilustrativa - Reprodução Google
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A arrancada dos russos não chegou a ser sensacional: aquela guerra que se ganha em dois dias está-se prolongando. Mas, nesta primeira fase, se a guerra continuar mais algum tempo, os russos devem vencer. Seu poder de fogo é muito maior que o dos ucranianos. O problema é que uma guerra nunca é só a etapa inicial, uma corrida de cem metros rasos, que exige arranque e velocidade: guerra é maratona, pede fôlego.
Aparentemente, os russos já sentem as represálias, que ainda nem foram aplicadas de maneira integral. O objetivo das sanções que o Ocidente está impondo é exatamente este: fazer com que a economia dos agressores se desgaste, levando a negociações ou a uma derrota militar.
Fora a pressão econômica, há a inesperada resistência dos ucranianos. Se os russos ocuparem o país, terão guerrilha, terão franco-atiradores, terão uma tarefa difícil. As armas pesadas que a OTAN prometeu, como canhões, não devem chegar em tempo. Caças exigem uma infraestrutura que os russos já estão destruindo. Mas bazucas antitanque, fuzis, mísseis Stinger (terra-ar, e portáteis) são armas excelentes para infernizar a vida de eventuais ocupantes. As situações não são comparáveis, mas a disposição é: russos e americanos foram tocados do Afeganistão. Some-se a isso o desgaste da economia russa, que reduz o padrão de vida da população, e os prejuízos dos maiores empresários do país.
Eles são Putin desde criancinhas, mas até quando?
 
As surpresas
 
É provável que Putin tenha se surpreendido com a resistência das tropas ucranianas, com a disposição de luta da população e com a rapidez dos países da OTAN em concordar com sanções que prejudicarão seus próprios interesses. Todos pagarão mais pelo petróleo. A Alemanha, consumidora ávida de gás natural russo, terá de buscar novos fornecedores a preços bem mais altos.
Outros fatos surpreendentes: a Alemanha, pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra, concordou em vender armas para área de conflito (e multiplicou por três seu orçamento de defesa). A Suíça, neutra desde os tempos de Napoleão, aderiu às sanções; Suécia e Finlândia, tão cautelosas diante dos russos que não entraram na OTAN, estão do lado da Ucrânia.
 
Impenetrável
 
Ninguém se atreve a imaginar limites para o comportamento de Putin. Ele é obstinado, bem preparado, e - como diria Bolsonaro - por coincidência ou não, muitos de seus ex-aliados morreram em circunstâncias estranhas. Sua aparência é impenetrável, seu pensamento só é revelado por ele mesmo, em pequenas porções. Deve ter excelentes assessores, seu serviço de informação desfruta de ótima fama. Circunstâncias que talvez o tenham surpreendido já devem estar analisadas e com soluções previstas. É esperar para ver.
 
Lembranças
 
Uma coisa não deve ser esquecida: antes da entrada de tropas russas na Ucrânia, os dois últimos países que invadiram outros países soberanos na Europa foram a Alemanha e a União Soviética, no finalzinho dos anos 30 do século passado. Seus líderes eram Adolf Hitler e Joseph Stálin.
 
Jogo duro
 
Mikhail Fridman, nascido na Ucrânia e bilionário na Rússia, onde é dono do Alfa-Group, declarou-se publicamente, e por escrito, contra a invasão. É uma atitude absolutamente incomum na Rússia. Na declaração, Fridman cita o que chama de “deterioração progressiva” da segurança no Leste europeu; diz que as preocupações russas a respeito desse tema foram desconsideradas, abrindo caminho para a crise.
E completa: “Deixe-me ser claro, no entanto: essa situação de forma nenhuma justifica o uso da força contra a integridade territorial e a soberania de qualquer Estado-membro. Isso vai de encontro aos mais básicos princípios e normas que todos respeitamos e é uma clara violação à Carta da ONU”. Os pais de Fridman moram na Ucrânia, em Lviv.
 
Por Carlos Brickmann - brickmann@brickmann.com.br
Coluna Chumbo Gordo - www.chumbogordo.com.br

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