A Cantina e o Araújo: “comer bem é um ato divino”

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A Cantina e o Araújo: “comer bem é um ato divino”
Walter Araújo com a atriz e humorista Nany People e com o então promotor do Ministério Público Federal, Deltan Dallagnol - Fotos: Arquivo Brand-News

Existem estabelecimentos comerciais que nascem com tanto carinho e tanto zelo que, diria o poeta, parecem ter sido verdadeiramente gestados na barriga de seus donos. Quando surgem, são como árvores brotando do solo: criam raízes profundas na vida de uma comunidade.

Não por acaso, muitas vezes a fachada traz primeiro o tipo do negócio - bar, loja, restaurante - e logo depois o nome do dono. Um casamento tão forte que, com o tempo, torna-se indissolúvel. Um passa a existir pelo outro. Um já não vive sem o outro.

Dias atrás, Poços de Caldas perdeu uma de suas figuras mais emblemáticas: Araújo - Walter Araújo - da Cantina.
Seu jeito bonachão, o sorriso fácil, a paixão declarada por Poços de Caldas e a forma calorosa de receber cada cliente fizeram da Cantina muito mais que um restaurante. Tornaram-na ponto de encontro, referência gastronômica e, para muitos, um verdadeiro cartão-postal da cidade.

“Comer bem em Poços de Caldas? Só na Cantina do Araújo.” A frase, espalhada por décadas em placas ao longo da rodovia que liga Poços a Campinas, trouxe à cidade milhares de turistas ao longo de mais de 70 anos. Vieram também celebridades, políticos e artistas, todos eternizados em um grande mural de fotografias. Todos atraídos pela mesma promessa: sentar-se à mesa e provar, entre outros pratos, o lendário filé à parmegiana - marca registrada da casa.

Poucos dias depois, outra notícia chegou pelo cardápio do tempo, esse que alimenta a vida e também encerra ciclos: a Cantina do Araújo fechou suas portas.

Para muitos, fica o lamento. Para outros, talvez a constatação inevitável de que a Cantina dificilmente poderia continuar sem o Araújo. Afinal, um corpo não vive sem alma.

Por isso, há hoje uma estranha sensação ao passar pela Rua Assis Figueiredo e encontrar a porta fechada. Falta alguma coisa no cenário: o Araújo conversando com clientes e amigos, defendendo o seu “Curintia” com entusiasmo e distribuindo opiniões generosas sobre a vida, a política e o futebol.

Mas talvez a história não tenha terminado. Talvez apenas tenha mudado de mesa.
Quem sabe, em algum outro lugar - desses que a gente não vê, mas imagina -, a Cantina e o Araújo estejam novamente juntos, abrindo portas e recebendo gente.
Afinal, como ele mesmo dizia, com uma convicção quase religiosa: “comer bem é um ato divino.”
E quem poderia discordar?

 

 

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