Juro que até tento me enquadrar e pensar como todo mundo (ou quase todo mundo), que viajar é uma das atividades mais agradáveis do ser humano. Renovar a alma. Ir ao encontro do desconhecido.
Mas que sujeito chato sou eu, que acha tudo um saco... Que não aguenta o transitar robótico dentro de um aeroporto... Que detesta carregar malas... Que não suporta o que, para mim, parece ser a felicidade pasteurizada da maioria. Que vê milhares de pessoas passarem à sua frente e sente estar ficando para trás na corrida atrás do pote de ouro no final do arco-íris.
Um sujeito que pensa, a todo tempo, estar "maionesando" a viagem, pois não consegue sentir a alegria vendida nas fotos dos pacotes de turismo e que todos parecem representar tão bem.
Talvez seja um caso clínico de devaneio, digno de horas em um divã instalado no interior de uma van em alguma cidade de veraneio.
O fato é que fui para Portugal. Um país de história milenar, riqueza gastronômica, vinícolas reconhecidas mundialmente, praias paradisíacas e invejável qualidade de vida.
E daí? Senti-me perdido e zonzo pelo excesso de "rotundas" (rotatórias) nas ruas. Com o aplicativo Waze nas mãos, imaginei os grandes navegadores portugueses - Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães. E eu ali, cansado de ouvir o GPS repetir: "Na rotatória, saia na primeira saída...".
E os frutos do mar? Polvo, camarão, lula, mexilhão...
Ai, que saudade de uma feijoada, de um torresmo à pururuca, de um tutu de feijão...
E as praias? Maravilhosas para os olhos. Contudo, a água geladíssima e o excesso de vento limitam o banho e transformam a paisagem em um cartão-postal. Apenas para fotos.
Vi um país de inovação tecnológica, mas também de intensa burocracia governamental. Vi um país com muita gente idosa e jovens buscando espaço em um mercado de trabalho cada vez mais apertado.
Há uma certa vida plastificada. Você vê Porsches, Ferraris e carros elétricos a cada esquina, o que produz uma sensação quase fantasiosa de desenvolvimento. Contudo, a maioria dos veículos portugueses tem mais de vinte anos de vida.
E, se você reclama da dificuldade para estacionar no Brasil, desconhece o desafio de encontrar uma vaga por lá. Outra coisa: vê-se carros estacionados sobre passeios, junto às guias e até próximos às praias, onde praticamente todos os estacionamentos são pagos. Mas não se vê gente nas ruas.
Tudo muito bonito. Muito perfeito. Muito regulamentado.
Outra observação, antes que eu me esqueça: indo para Portugal, veja como está o seu inglês, pois em muitos lugares ele parece ser mais útil do que se imagina.
Agora, se você pretende mudar para Portugal em busca de uma vida relativamente melhor, aconselho primeiro fazer bem as contas. Sonhos também precisam de orçamento.
Bem, para este texto não ficar maior do que a carta de Pero Vaz de Caminha, concluo que a viagem foi extremamente proveitosa.
Só assim valorizei o nosso jeito espontâneo de viver, nossa bagunça organizada, nossa forma emocional, alegre e criativa de fazer do limão uma caipirinha.
E confesso: em Portugal, senti-me sem porto, uma nau sem rumo.
Na terra do fado, senti-me enfadonho.
Enfim, se foram os portugueses que descobriram o Brasil, foi lá, em Portugal, que descobri o Brasil que tanto amo.
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