Naquele tempo, por volta das quatro da tarde, a rua da minha infância ganhava um som que, para mim, valia mais que o sino da igreja chamando para a missa.
Não importava se o céu despejava sol ou ameaçava chuva: lá vinha ele. Seo Dito. Avental branco impecável, olhos coloridos que eu jurava ter sido pintado à mão por Deus, e com aquela voz fina, quase em falsete, proclamava:
- Olha o sorveteeee!
Ao ouvir o chamado, eu saía de casa driblando os paralelepípedos e lépido, com o coração acelerado e a certeza de que o mundo, naquele instante, cabia dentro de um carrinho de sorvetes, aproximava-me e como quem dividia um segredo importante, fazia o pedido de sempre:
- Seo Dito, por favor, me vê um picolé de chocolate!
Ele fingia surpresa e sorria com aquele ar de quem já sabia da minha escolha, abria o carrinho e, com carinho, retirava o picolé e exclamava:
- É pra já, meu menino!
Hoje, a rua da minha infância já não tem paralelepípedos - tem asfalto liso e pressa, e no mesmo horário, por volta de quatro da tarde, passou outro homem empurrando um carrinho. Também de avental branco. Também vendedor de sorvetes e que, como muitos, desconheço o nome. O rosto trazia as marcas de muitos verões. Os passos eram lentos. A voz já não cortava o ar em falsete; era quase um sussurro, perdido entre motores e notificações de celular:
- Olha o sorvete...
Pouca gente ouviu. Talvez ninguém.
Foi então que percebi que, nesses tempos em que quem fala alto é a tecnologia, as vozes simples precisam quase pedir licença para existir.
E, parado na calçada da minha maturidade, senti que não era apenas um sorveteiro que passava - era a minha infância empurrando um carrinho de lembranças.
E, por um instante breve e precioso, acima do barulho do mundo, ecoou dentro de mim, uma voz cristalina, bendita, divina:
- Olha o sorveteeee!
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