O Brasil é o país do Carnaval. Ouvimos isso há décadas. Mas, hoje, essa máxima ultrapassa o reinado de Momo e invade a própria estrutura institucional do país. Carnavalizamos quase tudo. Na passarela do cotidiano, desfila como Comissão de Frente uma Justiça cada vez mais discricionária, adornada com fantasias constitucionais moldadas ao sabor das circunstâncias.
O recente desfile de uma escola de samba de Niterói, que trouxe como enredo o atual presidente da República em pleno ano eleitoral, transmitido ao vivo pela TV aberta e plataformas digitais, e respaldado pela decisão judicial sob o argumento de que “não há base jurídica para reprimir manifestação artística”, evidencia o quanto os limites se tornaram elásticos. Em nome da arte, relativizam-se princípios; em nome da interpretação, flexibilizam-se regras. E pouco adianta “rodar a baiana” contra o Sistema: o roteiro já parece escrito. Diga-se de passagem que o enredo não é inovador: em 2002, o mesmo presidente foi tema da Gaviões da Fiel e com um detalhe: foi a primeira eleição vencida pelo atual presidente. Vale o bicampeonato? Ressalte-se que a subvenção da Escola veio do governo federal, ou seja, dinheiro do povo.
O cidadão, nesse grande espetáculo, ocupa o papel de figurante. Assiste da arquibancada - ou da sala de casa - ao “samba do crioulo doido” que se tornou a política nacional, enquanto, nos camarotes, nossos representantes desfilam suas máscaras sobre os carros alegóricos do poder. Entre aplausos seletivos e silêncios convenientes, consolida-se a sensação de que a festa não é para todos.
Vivemos, ao que parece, mais uma “página infeliz da nossa história”, com “a pátria mãe tão distraída, sendo subtraída em tenebrosas transações”. Ainda assim, como toda folia que se encerra na quarta-feira de cinzas, resta-nos a esperança de que tudo isto vai passar.
Olha as eleições de outubro aí, gente!
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