Ô abre alas!

Por
3 Min
Ô abre alas!
Foto meramente ilustrativa - Reprodução Google

Desde sempre - e talvez para sempre - o Carnaval se organiza em alas. Há os que o amam com devoção e os que o rejeitam com igual fervor. Há ainda aqueles que já o amaram demais e hoje suspiram, sentenciosos: “não se fazem mais carnavais como antigamente”.
Convém, portanto, despir a fantasia e apartar a realidade da alegoria.

O Carnaval do corso e das marchinhas ingênuas, das bisnagas inofensivas, dos confetes e serpentinas, dos Pierrôs e Colombinas, dos bailes de salão sob lustres dourados, sobrevive apenas na memória afetiva de quem já cruzou a fronteira dos cinquenta. É um Carnaval que mora no coração - não mais nas ruas.

O de outrora foi um rio que passou. As águas seguem correndo, mas por outros leitos. Se fosse sincera, Aurora, admitiria: não há como fazê-lo voltar a ser o que foi. Nós mudamos. O mundo mudou. Em grandes capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, a festa de Momo transformou-se em engrenagem econômica, movimentando milhares de empregos e cifras milionárias. O batuque também virou negócio.

Em Poços de Caldas, aqui no Sul das Gerais, ainda há quem evoque, com saudade, o Concurso de Fantasias, os desfiles das escolas de samba, os bailes do Palace Casino, o Vermelho e Preto, o Verde e Branco. Com o tempo, porém, tudo isso foi adquirindo o tom sépia dos álbuns antigos. Restaram as escolas de samba, que também perderam fôlego, ritmo e pontos na avenida. A pandemia da Covid-19, somada aos problemas na prestação de contas da Associação das Escolas de Samba e Blocos Carnavalescos (AESB), comprometeu a harmonia, interrompeu a evolução e impôs um novo enredo: o chamado “Carnaval da Família”. Nele, apresentações musicais oficiais ocuparam praças e espaços públicos, propondo uma festa mais tranquila, segura e palatável para moradores e turistas.

Em 2026, como em tantas outras cidades brasileiras, Poços contará com dezenas de blocos, reunindo foliões em abadás da amizade. Soma-se a isso o movimento liderado pelo vereador e empresário do Carnaval, Marcus Togni, que assume o papel de porta-bandeira na tentativa de resgatar as escolas de samba locais. Nos dias 30 e 31 de janeiro, realizou-se o Primeiro Encontro Nacional de Escolas de Samba (foto), com a presença da Império da Vila do Céu, de Machado, da Império da Vila, de Tambaú, além das tradicionais agremiações da cidade: Saci-Pô e Pererê do Amanhã.

Como no início desta crônica, a proposta dividiu a cidade em duas baterias: os “do contra” e os “a favor”. É inevitável. Não há samba que agrade a todos os ouvidos. Ainda assim, é inegável: o Carnaval permanece como um ativo relevante para o turismo local, e o desfile das escolas de samba é mais um produto que, se bem concebido, ensaiado e apresentado, pode conquistar o apoio de moradores e visitantes.

No fim das contas, como em tudo na vida, cada qual com sua paixão e no seu compasso. No Carnaval, há os que desfilam a alegria no Império do Samba - e há os que preferem a serenidade do Império do Rancho Fundo.

 

 

*O Brand-News não se responsabiliza por artigos assinados por nossos colaboradores


Notícias Relacionadas »