A cidade nas águas: 10 anos depois

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A cidade nas águas: 10 anos depois
Ruas centrais da cidade após a chuva do dia 19 de janeiro de 2016 - Fotos: Reprodução internet

19 de janeiro de 2016. Estava, como centenas de pessoas, pelas ruas centrais de Poços, testemunhando a enchente que atingia a cidade, resultado de um temporal de duas horas com um volume de chuva esperado para quase um mês. O balanço realizado dias depois contabilizou cerca de 400 lojas atingidas em um prejuízo de, aproximadamente, R$ 30 milhões, além de algumas famílias que perderam suas casas, mesmo distantes da região central.

Senti, como muitos, naquele dia, um misto de tristeza, desolação e impotência. Em meio a lama e lamentos, carros empilhados, estabelecimentos comerciais inundados e mercadorias sendo levadas pelas águas, pude perceber, além do murmúrio das vozes que comentavam a tragédia, um silêncio inquietante como se estivéssemos todos em uma mesma procissão de dor.

Inevitável perceber que o slogan “Cidade das Águas”, se transformava na cidade nas águas e nos sinalizava conotações muito diferentes daquelas enaltecidas pelo turismo termal.

Impossível não se sensibilizar com proprietários de lojas, colaboradores e pessoas anônimas solidárias que tentavam juntas, ao retirar a lama, ao limpar o chão, ao recolher mercadorias, minimizar os prejuízos diante de tantas perdas e danos.

A história se repetia, já que em janeiro de 1926, a mesma tragédia havia acontecido em Poços e no mesmo local.

Refleti nos possíveis motivos que provocaram a calamidade e também nas limitações humanas diante das forças da natureza. E se águas rolaram pelas ruas e avenidas, se muitas lágrimas rolaram pelas faces, o que pensar diante de tudo aquilo que os nossos olhos registravam?

A urgência da necessidade da reconstrução, não só do patrimônio físico atingido pelas águas, mas do apoio psicológico e humanitário a todos os atingidos, foi seguido pela consciência da importância de cuidar permanentemente das nossas nascentes e a ação contínua de limpar rios e córregos que circundam a cidade.

Além disso, refleti sobre a exigência de um estudo técnico-profissional que pudesse mensurar como se encontrava a saúde hidrogeológica do município e de um relatório detalhado sobre os impactos provocados pela impermeabilização do nosso solo e o assoreamento dos nossos rios. Um trabalho que demonstrasse a real situação de nossas barragens e as construções de casas e prédios ao entorno dos córregos. Ações estas que, parecem, não terem sido realizadas até os dias atuais, embora, importante destacar, as obras de gabiões na Av. João Pinheiro, concluídas em 2025, sejam fundamentais para o escoamento das águas pluviais e a prevenção contra enchentes.

Contudo, precisamos ir muito além do jardim, buscando enxergar além das aparências da “Cidade da Saúde e da Beleza”.

Á água é um elemento que tem entre as suas funções a de limpar o que se encontra sujo, o que nos leva a pensar nos equívocos que possamos estar cometendo na falta de planejamento e de estudos verdadeiramente sérios para cuidar do que é realmente essencial.

Nesta premissa, fundamental não promover “caça às bruxas”, utilizando nossas fragilidades como instrumento político para apontar culpados. Todos nós, uns mais, outros menos, temos nossa parcela de culpa e cometemos nossos pecados diários, ao lançar dejetos nos rios, ao poluir nossas matas, ao não deixar “respirar” a natureza, ou simplesmente, pela nossa omissão com os destinos da cidade.

A enchente, tão dolorosamente vivenciada há 10 anos, veio nos resgatar a solidariedade. Que ela seja também um instrumento de reflexão inundando a consciência de todos nós, para repensarmos nossas ações diárias de descompromisso com a natureza e com o futuro desta cidade. Assim seja.

 

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