Naquele tempo, parecia que a morte morava muito longe da gente, quem sabe até em outra galáxia.
Ficávamos sabendo que determinado parente da família havia falecido. Quem mesmo?
Naquele tempo, ninguém morria, falecia.
De um tempo pra cá, parece que ela, a morte, resolveu mudar pra Terra e veio morar perto da gente, na cidade da gente, na mesma rua nossa.
Por outro lado, percebemos, numericamente, que a morte não descansa mais e a gente se pega cansado de tanto morrer junto. Verdadeiramente, ninguém deveria morrer antes de ao nascer, ver a mãe abrir-se no maior sorriso do mundo e o pai ficar "bobo" de alegria;
Ninguém deveria morrer antes de sugar o leite materno e dar os primeiros arrotos, dormir em um bercinho e acordar abraçado com bichinhos de pelúcia;
Ninguém deveria morrer antes de ganhar o carinho do colo da vovó e do vovô como o “xodó” da casa e ir pra escolinha, receber o carinho da primeira professora e conhecer os primeiros amiguinhos da vida;
Ninguém deveria morrer antes de dar a primeira volta de bicicleta na rua, de chegar molhado em casa, ganhar um “pito” da mãe e esperar até a próxima chuva;
Ninguém deveria morrer antes de olhar para uma garota ou um garoto e sentir algo diferente no peito e abraçar alguém tão forte como se nunca mais fosse se separar;
Ninguém deveria morrer antes de ver o pôr do sol em uma montanha e se encantar com a magia da natureza, antes de dar um beijo na boca de outra pessoa como se ela fosse, até que enfim, “a alma gêmea”;
Ninguém deveria morrer antes de rir tanto de uma piada até ficar com dor no pescoço, de ficar de porre porque a outra pessoa descobriu não ser a sua “alma gêmea, antes de comer uma pizza com amigos em uma noite de domingo;
Ninguém deveria morrer antes de ganhar o primeiro salário e sentir-se muito rico, antes de dizer “sim” com tanta força para alguém que nem se lembrará dos “nãos” que deu e recebeu;
Ninguém deveria morrer antes de ter uma casa ainda que pequena para viver um grande amor, de ser mãe para dar o primeiro sorriso de boas-vindas ou ser pai para ficar "bobo" de alegria, antes de virar avô ou avó para dar colo ao neto e tratá-lo como “o xodó” da casa.
Ninguém deveria morrer antes de ter vivido muito.