08/08/2022 às 15h44min - Atualizada em 08/08/2022 às 15h44min

Inocência

Jornalista, publicitário, escritor e professor universitário
[email protected] - Fotos meramente ilustrativas
Naquele tempo, jogava bola no Pantera do meu amigo Marcus Togni.
Penso eu que foi o primeiro time a quebrar o “sistema” e o machismo reinante, pois, uma de nossas primeiras camisas era cor de rosa e, claro, com o adesivo da Pantera Cor de Rosa, desenho de grande sucesso na época.
Outra diferenciação era que ao terminar o jogo, ao invés de irmos para um bar tomar cerveja boa parte do time ia para a Casa de Vitaminas 3 Canários, do seu Zé, para repor as energias. Coisas de quem jogava boiola, ops, bola. Hehe.
Acredite se quiser, deixei de praticar futebol, ou no popular, pendurei as chuteiras há uns 20 anos por um joelho impraticável e até hoje, segundo as estatísticas do time (que ainda existe) sou o quarto artilheiro, sendo que o Marcus Togni é o artilheiro (com mais gols que o Pelé), pois pênalti, escanteio, falta, lateral, tiro de meta...tudo é ele que bate.


Usualmente jogávamos na Fazenda Santa Maria, no caminho Poços-Águas da Prata, mas, vez em quando, íamos para outras cidades e outras fazendas. Aliás, como o Marcus era vereador, numa dessas campanhas eleitorais, em um certo sábado, chegamos a jogar 4 partidas em um só dia para manter o “eleitorado”. Se desse para perder, melhor.


Mas, qual a razão dessa crônica? Ah, é. Embolei o meio de campo.

Em uma ocasião, no intervalo do primeiro para o segundo tempo, vi um sujeito sentado em uma porteira, bota de couro, chapéu de vaqueiro na cabeça e resolvi ir até lá para um dedinho de prosa com o “menino da porteira”.
Pensava eu. Deve ser legal conversar com esse pessoal que mora em fazenda. Papos mais leves, sem a malícia do urbano... a natureza, vacas, cavalos, galinhas, porcos...isso é que é vida!
Ao me aproximar, já lasquei minha “linguagem rural”.
- E ai? bão?
- Bão!
- Deve ser muito bom morar aqui né?
- É...mais ou menos...
- Pa módi que?
- Aqui num tem muita coisa pra fazê. Só trabaiá de sor a sor... meio puxado viu...
- Ah, mas não tem barulho de carro, poluição, violência...(insisto na tese).
- Pódi ser. Mas, hoje, sabadão é que é bão...vou pra cidade.
- Uai...pa módi que? (minha linguagem rural é limitada)
- Uai... vê as muié...tem cada uma mió que a outra... e tomá umas chachaçá...só vorto amanhã a tardi...ou não.
(Meio decepcionado com a conversa, fechei o assunto...)
- Vou ter que voltá pra jogar! Prazer, viu! Fica com Deus!
- Falô!
(Voltei para o jogo e pensei: A vida no campo (também no de futebol) perdeu a inocência!)


 




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