25/02/2022 às 15h46min - Atualizada em 25/02/2022 às 15h46min

O Carnaval de mentirinha

Por Odair Camillo - Jornalista
Figura meramente ilustrativa – Reprodução Google
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“Oh, jardineira por que estás tão triste?”. Este primeiro verso da famosa marchinha de Carnaval que arrastou milhares de foliões Brasil afora, ainda está guardado num cantinho de nosso cérebro - e não pode ser cantado nas ruas e nos salões, desde que essa epidemia se abateu não só no Brasil, como no mundo.
No entanto, nas minhas reservas mentais, vem-me uma historinha, que deveria ser real, quando no Carnaval de 1981, no Palace Cassino, fantasiado de diabo, abraçado por duas belas mulheres, pulava adoidado no meio do salão. E lá ia eu, no meio da multidão, tirando proveito da situação. E, vez por outra, jamais pelo cansaço, deixava cair minhas mãos pelos seus corpos para sentir aquelas ondulações corpóreas que tornaram a mulher brasileira a mais cobiçada do planeta.
 
E a orquestra atacava de saudosista. Até parecia que de uns 20 anos para cá, não se aprendera nenhuma música nova de Carnaval. “As águas vão rolar. Garrafa cheia eu não quero ver sobrar. E de tanto ouvir falar em garrafa, senti vontade de molhar a garganta com o scotch que meu colega trouxera escondido na fantasia. E fazendo coro com o cantor, que nesta altura já havia mudado para outra música, aproximei de meu amigo e comecei a cantar: “Ei, você aí, me dá um trago aí, me dá um trago aí!
Lá pelas tantas, o cansaço já se fazia sentir, pois até mesmo os músicos procuraram dosar o repertório com sambas-rancho, surgindo então as sempre triunfantes “Pastorinhas”, “Estrela D´Alva” e outras.
 
E foi nestes poucos momentos de menos loucura que comecei a fazer uma análise realista da situação em que me encontrava. Pensei em como me safar de uma delas, que desde o início do baile estavam comigo, sonhando em disputar o clímax desse final de madrugada. Minha salvação poderia ser o colega do scotch, que se engraçara com a morena na hora em que nos abastecia com o seu Chivas. Porém, percebi que sua ajuda seria inútil, uma vez que ele já se encontrava estendido no chão, próximo à escada de acesso às galerias, completamente embriagado.
 
Por fim, a orquestra iniciou os acordes daquela que seria a última música: “Está chegando a hora. O dia já vem, raiando meu bem, eu tenho que ir embora”De fato, pelas grandes janelas do Palace Cassino, já adentravam os primeiros raios solares, anunciando a chegada de um novo dia. Descemos as escadas, eu ainda envolto pelo carinho das garotas que, certamente, me fariam o mais feliz dos mortais naquela manhã. Ziguezagueando e com alguma dificuldade, conseguimos chegar até o carro que se encontrava estacionado não muito distante. Abri a porta e nos acomodamos no confortável assento dianteiro, ainda sem saber como começar, ou terminar...
 
Quando estávamos no maior enlevo, sentindo-me como um sultão entre as belas odaliscas, ouvi alguém abrir uma porta - que não era a do carro, mas a do meu quarto, e chamar baixinho:
- Paiêee! Ôi pai! Acorda, vamos! A minha aula começa às sete horas. O senhor me leva de carro?
Como o próprio diabo, na maior raiva possível, dei um tremendo berro: “Passa já daqui, seu cachorrinho. Você tinha que me acordar logo agora?
 
Do livro “Crônicas em Concordata” - Fevereiro de 1981

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