21/01/2022 às 15h44min - Atualizada em 21/01/2022 às 15h44min

José Rosa, o “Xixo preto”

Por Odair Camillo - Jornalista
Um “bon vivant” na década de 70
 
Quase todas as tardes, locais e turistas que transitam pelo centro de Poços de Caldas, os primeiros preocupados com seus afazeres cotidianos, os últimos simplesmente desfrutando de nossas belezas naturais e ávidos de conhecer o nosso centro comercial, invariavelmente, não deixam de voltar seus olhos nem tanto curiosos quanto extasiados ao verem passar por eles a figura esbelta de um negro de estatura mediana, vestido no mais alto requinte da moda, assemelhando-se aos nobres Cavaleiros do Período Colonial.
É o José Rosa, ou melhor, o “Xixo preto” que passa, vestindo uma belíssima calça-culote e botas impecavelmente engraxadas que fazem-nos lembrar dos coronéis ou de nosso estimado Xixo, Moacyr de Carvalho Dias, quando administrava suas fazendas e vinha à cidade usando a indumentária característica antes de tornar-se num dos maiores caps de nossas indústrias.
 
Mas, deixando de lado esses pormenores sobre o porquê de Xixo Preto, voltemos ao José Rosa, botelhense nascido no ano em que se realizou a Semana da Arte Moderna. Radicado em Poços de Caldas desde quando seus pais, mestre José Zeferino e sua mulher, dona Maria Rosa Costa, decidiram morar numa cidade maior. Uma infância marcada desde muito cedo pelo trabalho braçal, mas espiritualmente liberto nas suas altas pretensões, José Rosa conviveu grande parte de sua vida com a família Vivaldi Leite Ribeiro, quando este administrava a Companhia de Minas Gerais -  Hotel Quisisana.
Talvez influenciado pelo neto dessa família, com quem manteve estreitos laços de amizade, rapaz muito rico e que se vestia bem, sempre montado em belíssimas espécies cavalares, José Rosa, segundo sua esposa dona Iolanda, “assimilou o espírito de milionário, trabalhando toda a sua vida para o luxo.”
Em 1942, começou a trabalhar com o Xixo em sua mineração. Ali ele pôde aprimorar seu hábito de bem vestir observando seu patrão, chegando a ponto de imitá-lo até na maneira de assoviar. Ao se aproximar dos outros empregados, montado elegantemente, estes chegavam a dizer: “Lá vem o Xixo preto!”. Em 1965, herdando alguns bens deixados pela sua progenitora, resolveu parar de trabalhar, somente retornando após dois anos. Empregou-se por algum tempo no Hotel Miami como ajudante de cozinha, depois zelador na Associação Atlética Caldense, funcionário na Cerâmica Togni na seção de moagem, até que em 1973 arranjou um emprego como recepcionista no Hotel Lealdade.
José Rosa vive tranquilamente em sua casa da rua Barão de Campo Místico, onde construiu uma pequena vila. Nela residem modestamente seus seis filhos, quase todos casados, que lhes deram 10 netos. Descansa toda a manhã após seu trabalho noturno. À tardinha, após um banho e com as melhores essências, veste sua melhor roupa e vem desfilar garbosamente sua elegância nas principais ruas da cidade.
                       
Entrevista concedida ao jornalista Odair Camillo, em julho de 1979
 
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