Lima Duarte é um município do sudeste de Minas Gerais, inserido na Zona da Mata - região onde os mineiros são especialmente carinhosos. Com população estimada em 18 mil habitantes, o município é dividido entre a sede e quatro distritos - entre eles o de Conceição de Ibitipoca, famoso destino de ecoturismo e cenário da aventura desta vez.
Ainda na estrada, o convite irresistível de pequenos estabelecimentos: queijos, linguiças artesanais... um tal pão com canela. Provamos todos - afinal, os dias seguintes exigiriam energia.
A cerca de intermináveis 27 km da cidade, a 1.180 metros de altitude, está a vila de Ibitipoca. Ali, o deslumbrante Parque Estadual recebe visitantes de todos os cantos. Nas ruas estreitas, carros aguardam sua vez enquanto pequenas pousadas, lojas de artesanato e bons restaurantes demonstram que a noite também pode ser interessante. Bons chopes como troféus e pratos generosos, como a galinha caipira com ora-pro-nóbis, são opções certeiras. Talvez algum religioso ore mesmo antes de seguir a trilha - ou em agradecimento ao final dela.
Mas é o parque que importa. Com 1.488 hectares, o Parque Estadual do Ibitipoca se estende também por municípios vizinhos. No alto dessa serra mineira, onde o céu parece mais próximo, os visitantes - em sua maioria mineiros e cariocas - encontram refúgio e desafio.
Os primeiros quatro quilômetros de aclive da trilha da Janela do Céu já fazem alguns considerarem um retorno. Mas os tons de verde mudam, a curiosidade pelo que está por vir empurra mais um passo... e outro. Em certo ponto, um marco: 1.784 metros de altitude, no Pico da Lombada, onde as pessoas param para o visual que comprova o quão incrível é o estado mineiro e suas formosas montanhas. Tempos depois, a famigerada Janela do Céu. Lugar para fotos e fila. A água gélida de uma pequena cachoeira testaria alguns Vikings. Se chegamos até ali, por que não encarar? Além desta longa trilha, há ainda o Circuito das Águas e o Circuito do Pico do Pião.
Pelo caminho surgem grutas frias como portais para alguma trégua - escuras, silenciosas e fascinantes. Depois delas, a mata se abre e o sol incide diretamente na trilha questionando nosso encorajamento, aquecendo ainda mais o corpo enquanto a brisa nos engana. Passamos boas e longas horas explorando trilhas que serpenteiam entre o cerrado, a Mata Atlântica e campos rupestres. As paisagens encantam pelo contraste e pela harmonia entre solos, pedras e vegetações distintas. Rochas, árvores nuas, encostas íngremes, terra vermelha e cachoeiras de água caramelada compõem o cenário. Haja respiração, mas a vista nos devolve o fôlego. Ao final, como sempre, ao sentar, uma sensação de orgulho por ter vencido alguns biomas.
Percorremos entre o som dos pássaros, o vento e, quem sabe, sob o olhar vigilante de um lobo guará. Pena não termos visto um. Fomos bem exigidos durante os 30 quilômetros ao longo de dois dias. Longe de nós sermos profissionais. Somos entusiastas motivados ignorando a fadiga. Mas é nesse cansaço que encontramos descanso.
Por Marcelo Leme - Roteirista de cinema e curador
Instagram: @marceloafleme