Estendida à beira do movimentado Mediterrâneo, a cidade combina elegância e alguma simplicidade, com uma sofisticação que nunca soa afetada. Em abril, o mar exibia um azul marcante, que mudava de tom ao longo do dia - ora mais profundo, ora mais translúcido - seguindo o desenho da luz solar. Convidava com sua beleza, mas afastava com seu surpreendente frio. A água, costumeiramente gelada, tocava a pele como a brisa da manhã: uma lembrança tardia do inverno que partia. Era primavera, e a cor verde surgia pelas colinas sob uma luz que parecia ter algum tipo de encantamento - ou talvez fosse apenas a empolgação de estar ali. Quem sabe?! O simples gesto de caminhar - que tanto repeti - parecia feito para durar o dia inteiro.
A Promenade des Anglais se estendia como uma passarela à beira do mar. De um lado, o Mediterrâneo quebrava suave nas pedras. Do outro, o movimento contínuo de carros, ciclistas e pedestres, passando por cafés, hotéis clássicos e construções antigas, como o majestoso Hotel Negresco. Em frente, o vigor dos que correm, pedalam ou patinam sob o sol suave da estação. Nice é movimentada. A ciclovia acompanha a calçada ampla, e há sempre algo a se observar - as pessoas, a paisagem, a luz... alguém tocando... alguém dançando... alguém cantando. E era especialmente incrível ver as centenas de bancos virados para o mar com pessoas sentadas, apenas sentadas, observando a paisagem mudando de forma a cada minuto.
À medida que nos afastamos da orla, o ritmo muda. As ruas se estreitam e oferecem surpresas que fazem de qualquer viajante alguém mais feliz: lojinhas, bares, restaurantes, esculturas, fontes, mercados e o som de centenas de vozes em diferentes idiomas - na maior parte do tempo o francês, mas também havia muito de italiano. Nos bares e cafés do centro histórico, o mar já não se ouvia, mas sentia-se a efervescência mediterrânea em outro tom. São muitas opções gastronômicas e a curiosa lembrança que restou foi de um incrível croissant comprado em um Carrefour. Todos os dias.
Percorrer pelas ruas de Nice é uma experiência realmente empolgante. Longe do agito costeiro, encontramos galerias de arte, antiquários, ateliês e vitrines que refletem a cidade. A arte está por toda parte - na rua, nas paredes, nos museus. Muitos artistas encontraram ali não só inspiração, mas morada. E não é difícil compreender o motivo: há algo de profundamente idealizável no cotidiano em Nice.
A cidade oferece vistas inesquecíveis. Do alto da Colline du Château - onde hoje existe um parque com mirantes - o mar se estende como lençóis agitados. À direita, as praias de pedras e a Promenade formam uma cena de cartão-postal, com aviões cortando o céu, trazendo e levando visitantes. À esquerda, o porto com seus iates que refletem o sol. Há ainda a facilidade de encontrar outros destinos desta Riviera Francesa, como Cannes, Antibes e Mônaco. São poucos minutos de trem. Procurar pela estação é outro interesse, pois sempre descobre-se algo novo, como uma rua com dezenas de árvores que parecem moldadas.
A quinta maior cidade da França é feita de contrastes harmônicos: da grandiosidade do Mediterrâneo à intimidade das vielas que misturam referências francesas e italianas. Ao final da tarde, um passeio caminhando sobre as pedras na praia, ouvindo o som das aves e do mar; uma cerveja local ajuda a contemplar. Certamente um destino para se revisitar em outras estações.
Marcelo Leme - Roteirista de cinema e curador
Instagram: @marceloafleme