“Ao falar do Caminho da Fé, algumas palavras passam em sua mente: disciplina, superação, contemplação, meditação, fé e gratidão”, diz o cirurgião plástico Victor José Adissi, que percorreu pela quarta vez os 318 km que ligam Águas da Prata a Aparecida
Na minha primeira vez, um amigo comentou, em tom de brincadeira, que eu devia ter muitos pecados para andar mais de 300 km. No que respondi: “Não vou para pedir perdão, e sim para agradecer”. Um mês antes de começar a quarta jornada, minha sogra indagou: “É punição?”. Respondi: “Diversão!”.
Terminei em maio o percurso, tem amigos do grupo que já foram de 9 a 10 vezes. Virou um encontro, é como se fosse ir ali, na esquina de casa.
A magia do Caminho da Fé foi demonstrada pela composição do grupo, que se fez em 7 a 10 dias em encontros diversos e inesperados, culminando com a missa na Basílica de Aparecida, quando senti a presença de minha mãe durante todo o culto.
O Caminho pode ser percorrido pelo peregrino em torno de 10 a 13 dias, dependendo de quanto se quer caminhar a cada dia. Optamos por 13 dias, caminhando de 20 a 30 km, de acordo com as cidades em que ficaríamos; assim, poderíamos desfrutar sem pressa e admirar todo o esplendor das paisagens.
O crescimento do número de peregrinos que percorrem o trajeto diariamente, fez com que surgissem novos pontos de lanchonetes, bares, vendas. As antigas pousadas se ampliaram e novas surgiram. As cidades que ficam no trajeto se mobilizaram e se preparam cada vez mais para um novo, crescente e constante turismo - isso porque, além dos peregrinos e bikes, existem também cavalos, carroças, carros e motos.
Para garantir a hospedagem, atualmente é necessário se programar com uma antecedência de 6 a 8 meses - se houver feriado durante a data programada, esse tempo deve ser ainda maior.
As serras a serem vencidas são: Pântano dos Teodoros, Cantagalo, Serra dos Limas, e a mais esperada (enorme e lindíssima), a Luminosa. São 1.800 metros de altitude, um ganho de 840 metros em aproximadamente 8 km.
Claro, todo o trecho tem algum grau de dificuldade, e ao final de cada descida, com certeza haverá uma subida (é voz corrente).
O solo por vezes é pedregoso ou barrento (escorregadio), seco (muita poeira). Faz calor, frio, e as chuvas podem acontecer a qualquer momento.
Cansaço, bolhas nos pés, dor muscular ou articular, surgem do nada. Temos como tratar corretamente as bolhas, mas, mais importante é preveni-las: vaselinar entre os dedos e em todo o pé antes de cada dia, usar meias mais grossas, tênis ou botas confortáveis e já amaciados.
São tantas as variantes que podem ocorrer no trajeto, e que são motivos de preocupação, mas a convicção de percorrê-lo é determinante.
O Caminho da Fé combina fé, natureza e desafios. Ao longo do percurso, o peregrino se fortalece na fé
Estar preparado(a) física e psicologicamente, antecede a caminhada. Os treinos envolvem caminhadas de mais ou menos 20 km e musculação. É de fundamental importância escolher bem as roupas e calçados previamente.
Abrir mão do conforto e da alimentação usual, faz parte, mas não chega a incomodar. Vale lembrar que as bikes descem silenciosas (e inesperadamente) pelas grandes ladeiras, o que pode ser um risco para os peregrinos.
Vislumbrar uma montanha enorme, distante, com uma altitude absurda, percorrê-la e passar para o outro lado, e após um tempo vê-la de novo lá trás, bem distante, traz uma sensação indescritível. Com certeza, são momentos inebriantes que você se encontra e encontra com Deus.
Em 2016, na primeira caminhada, fiz um único pedido: que uma injustiça NÃO fosse feita, e fui atendido.
Na abertura do XIV Congresso Sul Mineiro de Cirurgia Plástica, realizado em março de 2024, no Auditório da PUC, em Poços de Caldas, comentei que já havia percorrido o Caminho por 3 vezes, e que após o resultado do evento eu teria que ir pelo menos mais 3 vezes para agradecer. O primeiro passo foi dado: já fui a primeira vez!