Os subsídios para a narrativa a seguir foram colhidos em viagens de labuta no fim do século passado. Sem saber que meu colega de trabalho era o criador da guloseima, nossos assuntos na estrada sempre escorriam para afinidades gastronômicas. Em certa ocasião, mencionei o Dona Lindona como um ícone do vilarejo da Beloca. De pronto, Celso Zerbetto assumiu a autoria do sanduba e me contou a história. Caramba, eu rodava por aí com uma lenda! Então, ouçam a coisa toda…
Um boteco descolado para esta Sanja de majestosos crepúsculos. Era isso que eles queriam. Bons de copo, cheios de ideias e atrás duns trocos, os irmãos Zerbetto - Celso e Carlão -, Gil Sibin, Sérgio Tché Bozzolo e Sonia Sueli de Souza puseram na cachola que a noite destas bandas caipiras nunca mais seria a mesma. Estávamos no final dos anos 1970 e o Tekinfin ainda era um bar incipiente.
O local escolhido foi um subsolo puído na baixada da rua São João. Por razões óbvias, a taberna foi batizada de Porão. Aliás, Porão Café Bar.
E o cardápio? Nada de convencional. Drinques, lanches e petiscos com o DNA do melhor da Pauliceia Desvairada.
Folheto distribuído nos clubes que tinham bailes carnavalescos / Capa do cardápio
Nota publicada em jornal de São João da Boa Vista. Data e veículo desconhecidos
Cartão que era entregue ao cliente junto com a conta
A criação da carta consumiu dias de peregrinação por tascas que ferviam na noite paulistana. Cardápios foram surrupiados de cafés do Bexiga e de pubs dos Jardins. É falso dizer que a pesquisa foi enfadonha.
Após a maratona de cartas tungadas e acepipes devorados, o estado-maior do Porão se reuniu numa etílica mesa-redonda para bater o martelo acerca do menu.
Martelo batido, entre as escolhas estava o sanduíche beirute. Prevenidos, os novos empresários mandaram vir da metrópole toneladas da alma do beirute: o pão sírio dos "brimos" da 25 de Março e adjacências.
Dias antes da abertura da casa, perceberam que os pães estavam deteriorados. Toda a encomenda estava tomada por um asqueroso bolor. Daqueles bem verdes e aveludados.
A rede de contatos foi acionada pelo timbre grave de Celso Zerbetto. A emergência pedia o socorro ligeiro da sogra paulistana. Dona Lindona ouviu os clamores via DDD:
- Sogrinha do coração, pelamordeDeus! Desce na 25 e manda pra cá trocentas dúzias de pão sírio. Vamos abrir o boteco e o menu tem que estar completo.
Solícita com o genro, Dona Lindona atendeu às preces do vozeirão e, no dia seguinte, foram descarregados nas imediações da Estação montes de… pão folha. O quê?! Libanês, finíssimo, do tamanho de uma toalha de rosto. O pão era sírio, mas inapropriado para o beirute.
Celsão não se zangou com o equívoco e teve um insight gastronômico genial: estendeu a toalha de massa na mesa, cobriu-a com maionese, tomate, alface, rosbife, queijo, e dobrou sucessivamente a folha recheada. O insólito embrulho ainda padeceria de outra invencionice zerbettiana: foi pincelado por fora com densas camadas de geleia de morango. As testemunhas da grande sacada explodiram em gozo ao provar o sanduba.
Nascia ali, naquele típico acaso das grandes invenções, o Dona Lindona, um ícone da gastronomia sanjoanense. Um êxtase agridoce!
O icônico sanduíche Dona Lindona
Anos depois, após o Porão baixar as portas, a ferveção na Sanja-night era no Salamalec. A viuvada do Dona Lindona pediu ao proprietário da nova casa que introduzisse o pitéu no cardápio. Conseguiram! Celso Zerbetto passou o modo de fazer da lenda embrulhada à cozinha do Salamalec. Os glutões agradeceram.
Bem verdade que, nessa época, o Dona Lindona foi vítima de uma herege variação. Tiveram a ousadia de substituir a geleia por requeijão. Os fundamentalistas protestaram, em vão, contra a opção queijeira.
Autorizado ou não, vez ou outra o Dona Lindona pipoca no cardápio de alguma nova lanchonete. Essa percepção de domínio público prova o quanto o sanduba está arraigado na cultura gastronômica da cidade.
Porão e Salamalec, hoje, apenas vivem na memória desta Sanja. Celso Zerbetto, empreendedor inquieto que hoje faz sucesso com comida oriental no excelente e decenário HaoChi, entre idas e vindas, revive esporadicamente o Dona Lindona.
Não sei avaliar se as novíssimas gerações gostam do Dona Lindona, não sei se consomem o suficiente para mantê-lo vivo, mas sei que um maná que jamais sucumbiu totalmente em quarenta e cinco anos, que sempre ressurge sob clamores de uma consistente legião de devoradores, está gravado permanentemente nas enciclopédias desta aldeia que também venera o bauru de lombo.
Nota do autor: intruso no cardápio asiático do HaoChi, o Dona Lindona ali está disponível de quarta a sábado, para alegria dos saudosistas, glutões 50+, aficcionados, jovens curiosos e afins.
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