11/08/2022 às 15h26min - Atualizada em 11/08/2022 às 15h26min

Aquela voz

(tributo a meu pai)

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Figura meramente ilustrativa - Reprodução Google
C 
Havia uma voz em minha vida que me chamava de “meu filho” e me abençoava como se abençoa uma criança.
E eu me sentia um menino sempre que ouvia aquela voz.
Havia uma voz em minha vida que aconselhava, incentivava e falava de perseverança.
E eu me sentia um lutador sempre que ouvia aquela voz.
Havia uma voz em minha vida que falava de livros, de poemas, de contos e crônicas.
E eu me emocionava sempre que ouvia aquela voz.
Havia uma voz em minha vida que falava de dignidade, de honra, de espiritualidade.
E eu tinha um enorme orgulho em ouvir aquela voz.
Havia até, uma voz nas manhãs de Poços de Caldas, quando Isidoro concluía suas crônicas dizendo “BOM DIA, VIDA!”, cujas páginas se fizeram livro a perpetuar seu otimismo e sua poesia.
Havia sim, uma voz em nossas vidas, mas volatizou-se nas asas pandas do infinito, na inexorável despedida, quando se rompe a dualidade humana, quando o corpo sucumbe às suas próprias mazelas e o espírito voa como um pássaro em liberdade plena.
Sabe pai, há tempos não ouço sua voz.
Aquele “Deus te abençoe meu filho” - é hoje um eco que viaja nos meus pensamentos e repousa na saudade.
Como tenho saudade daquela voz...
Quando eu escrevia uma crônica ou uma poesia, mesmo que simplórias, havia uma voz a me dizer: “você é um poeta, meu filho”.
E eu quase acreditava.
Mas, quando eu o ouvia, pai, a declamar um poema, não segurava a emoção e dizia: você sim, pai, é um poeta - e você sorria.
E eu gostava de vê-lo sorrindo daquela forma.
Mas, o sorriso esvaiu-se. O poema emudeceu-se. Ficou tudo sem graça.
Contudo, quero confessar uma coisa em sua memória, pai:
A dignidade, a honra, a espiritualidade, essas você não só falou delas, você as plantou nos nossos corações e elas florescem e crescem todos os dias das nossas vidas, e então pai, todos nós, seus filhos, netos, bisnetos, amigos que lhe queriam bem; todos nós lhe aplaudimos em pensamento, na linguagem transcendental que sintoniza dois mundos distintos.
Eu continuo escrevendo coisas simplórias, mas nem sempre sei se gosto delas, pois não ouço aquela voz que me fazia acreditar nas coisas que escrevia.
Então eu penso em você, pai. E leio para que você escute.
Às vezes, enquanto leio, tenho a sensação de ser corrigido. Então sorrio e penso: “Obrigado pai”.
 
Do livro DIVAGAÇÕES - contos, crônicas e versos - 2007


 



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