Anvisa aprova primeiro tratamento não hormonal para fogachos da menopausa; entenda para quem ele é indicado

Por Cinthia Jardim
6 Min
Anvisa aprova primeiro tratamento não hormonal para fogachos da menopausa; entenda para quem ele é indicado
Foto: Divulgação / Magnific

Fármaco age diretamente nos mecanismos envolvidos na termorregulação e representa um avanço para pacientes que convivem com sintomas persistentes

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o Veoza® (fezolinetanto), um novo medicamento indicado para o tratamento dos sintomas vasomotores da menopausa, como ondas de calor e suores noturnos. A novidade marca a chegada ao Brasil de uma alternativa não hormonal para mulheres que sofrem com sintomas moderados a intensos e não podem, não desejam ou não respondem adequadamente à terapia hormonal convencional.

A aprovação acompanha uma tendência internacional de ampliar as opções terapêuticas para um grupo cada vez maior de mulheres. Segundo estimativas, até 80% das mulheres entre 40 e 65 anos apresentam fogachos durante a transição menopausal e, no Brasil, mais de um terço delas relata sintomas de intensidade moderada a grave, com impacto importante sobre sono, produtividade, bem-estar e qualidade de vida.

Diferentemente da terapia hormonal, considerada padrão ouro para a maioria das mulheres elegíveis, o fezolinetanto não atua por reposição de estrogênio. Seu mecanismo de ação é direcionado ao cérebro, mais especificamente ao hipotálamo, região responsável pelo controle da temperatura corporal.

Os sintomas vasomotores da menopausa estão entre as queixas mais frequentes nos consultórios. Ondas de calor repentinas, suores noturnos, interrupções do sono, irritabilidade e fadiga podem comprometer significativamente a rotina.

Segundo a endocrinologista Alessandra Rascovski, diretora médica da Atma Soma, a aprovação do fezolinetanto representa um avanço importante porque reforça a compreensão atual da menopausa como um fenômeno que também envolve o cérebro.

“A menopausa é desencadeada pela falência ovariana, mas seus efeitos se estendem amplamente ao cérebro, que possui grande concentração de receptores estrogênicos envolvidos na regulação da temperatura corporal, do sono, do humor e da cognição. Quando ocorre a queda dos níveis de estrogênio, há alterações na atividade de circuitos neurais envolvidos na termorregulação, no sono e na regulação emocional”, afirma a médica, que também é autora do livro AtmaSoma - O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor.

Ela explica ainda que o novo medicamento atua justamente em uma das vias envolvidas nessa instabilidade térmica. “O fezolinetanto não substitui hormônios. Ele bloqueia seletivamente os receptores de neurocinina-3 (NK3R), reduzindo a hiperatividade dos neurônios KNDy do hipotálamo. É uma abordagem inovadora porque trata diretamente um dos mecanismos responsáveis pelos sintomas vasomotores”, diz Rascovski.

Alternativa para mulheres que não podem fazer reposição hormonal
Embora a terapia hormonal siga sendo considerada a estratégia mais eficaz para o tratamento dos sintomas da menopausa em mulheres sem contraindicações, nem todas podem utilizá-la.

Para a ginecologista Fernanda Dib, da Atma Soma, é justamente nesse contexto que a aprovação ganha relevância. “A terapia hormonal continua sendo o tratamento padrão para muitas mulheres e apresenta benefícios importantes quando indicada corretamente. Mas existe um grupo de pacientes que possui contraindicações ou restrições ao uso de hormônios. Para essas mulheres, a chegada de uma opção eficaz e não hormonal amplia significativamente as possibilidades de cuidado”, afirma.

Entre os casos que exigem avaliação mais criteriosa estão pacientes com histórico de eventos cardiovasculares, determinadas doenças hepáticas e algumas mulheres com histórico de câncer de mama.

“Cada situação precisa ser analisada individualmente. A aprovação do medicamento não significa que ele será indicado para todas as mulheres ou para todas as pacientes oncológicas. O histórico clínico, os tratamentos em curso, as medicações utilizadas e o perfil dos sintomas precisam ser considerados durante a consulta”, explica a ginecologista.

Além disso, a chegada de terapias não hormonais é acompanhada com atenção por especialistas que atuam no cuidado de mulheres com histórico de câncer de mama. Isso porque muitas pacientes apresentam menopausa induzida por tratamentos oncológicos ou desenvolvem sintomas vasomotores intensos durante o uso de terapias endócrinas.

“Os fogachos podem ter um impacto enorme sobre a qualidade de vida dessas pacientes. Muitas relatam dificuldade para dormir, fadiga constante, alterações de humor e prejuízo nas atividades diárias. Por isso, há muitos anos existe uma busca por estratégias eficazes que não dependam da reposição hormonal”, afirma Fernanda Dib.

Segundo a ginecologista, o fezolinetanto amplia o arsenal terapêutico disponível, mas não elimina a necessidade de avaliação individualizada. “É uma ferramenta importante, mas não substitui a consulta médica. O que define a melhor estratégia é sempre o contexto de cada mulher.”

Mais opções, mais individualização
A aprovação do Veoza ocorre em um momento de transformação na forma como a menopausa é compreendida pela medicina. Nos últimos anos, estudos de neuroimagem liderados pela neurocientista Lisa Mosconi, da Weill Cornell Medicine, mostraram que a menopausa envolve alterações neuroendócrinas que vão além dos ovários, afetando circuitos cerebrais relacionados à memória, ao sono, ao humor e ao controle da temperatura corporal. 

Para Alessandra Rascovski, a principal contribuição da nova terapia talvez seja justamente ampliar as possibilidades de cuidado. “Durante muito tempo, muitas mulheres ouviram que era preciso simplesmente suportar os sintomas porque eles faziam parte do envelhecimento. Hoje sabemos que não é assim. Existem tratamentos seguros, eficazes e cada vez mais personalizados. O mais importante é entender que a menopausa não deve ser enfrentada com resignação ou sofrimento silencioso.”

Ela ressalta que nenhuma medicação deve ser vista como solução universal. “A medicina caminha para a personalização. Algumas mulheres serão excelentes candidatas à terapia hormonal, outras poderão se beneficiar de abordagens não hormonais. O fundamental é que elas tenham acesso à informação, avaliação adequada e opções baseadas em evidências científicas.”

Embora aprovado pela Anvisa, o Veoza ainda não teve preço divulgado nem data oficial de lançamento anunciada para o mercado brasileiro. A definição do valor depende da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED).

Enquanto isso, especialistas destacam que a aprovação representa mais um passo na ampliação do cuidado à saúde da mulher, especialmente em uma fase da vida que ainda é cercada por desinformação e subtratamento.

“Menopausa não é apenas o fim da fase reprodutiva. É uma transição biológica complexa, que merece atenção, acolhimento e tratamento adequado quando necessário. Quanto mais opções tivermos para individualizar o cuidado, melhor será a experiência dessas mulheres”, conclui Alessandra Rascovski.

 


FONTE: Cinthia Jardim - [email protected]
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