Tios, Mappin e moonwalk

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Foto gerada por IA

Padecendo de cuidados de saúde, minha mãe foi generosamente acolhida por tio Nê e tia Ivone no belo apartamento deles, na Rua Haddock Lobo, em São Paulo. Eu e meus irmãos seguimos juntos para aquela temporada de duas semanas.

Eram os primeiros dias de agosto de 1984. Los Angeles sediava os Jogos Olímpicos. Eu, dormindo na sala envidraçada do apê, ficava madrugada adentro vendo as competições na TV e o relógio do Itaú no topo do Conjunto Nacional. As temperaturas, não raras vezes naquele inverno, batiam 5 °C.

Num determinado dia, saímos - eu, Gui e Dudu - para ir com o tio Nê ao Mappin da Rua São Bento. O passeio de metrô já foi novidade para nós, moleques do interior. Mas o melhor foi o que ganhamos na famosa loja: um radiogravador com dois alto-falantes. Até hoje não sei se o aparelho foi presente da minha mãe ou do tio Nê.

Junto com o som Philips, no mesmo Mappin, compramos uma fita K-7 do álbum Thriller, que já bombava nas paradas. Ouvimos, à exaustão, aquelas canções que mudaram para sempre a música pop. É claro que este branquelo e desengonçado arriscou a coreografia do break e o movimento moonwalk. É claro que jamais alcancei uma performance minimamente digna.

Lembrei-me disso na noite de ontem, em Poços. Maravilhados, eu e Josi assistimos “Michael”. Linda e emocionante narrativa que mostra um pedaço da jornada de Michael Jackson, esse sujeito de Indiana cuja voz única, abençoada, somada ao talento como dançarino, ajudou a forjar o maior artista musical de todos os tempos.

Louvo minha mãe ainda conosco, forte e saudável - mas fica a saudade dos tios Nê e Ivone, tão carinhosos num momento difícil. Fica também a tristeza pela partida tão precoce de Michael Jackson.

Liguei para minha mãe, que guarda tudo, mas ela disse que o radiogravador Philips está tão sumido quanto o Mappin e o próprio Michael - e talvez seja assim mesmo: há coisas que não desaparecem; apenas saem de cena para tocar, em silêncio, e serem lembradas no íntimo da gente.

 

 

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