Doar ou não? Eis a questão
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Doar será sempre um ato voluntário, espontâneo, fruto da consciência, das experiências e dos valores de cada um. Há quem doe sangue, quem doe órgãos, quem compartilhe recursos financeiros, quem ofereça seu tempo e quem coloque seu talento a serviço de pessoas ou de causas sociais.
O tema é amplo e complexo. Por isso, o que você vai ler não pretende estabelecer verdades. Trata-se apenas de uma reflexão, baseada em minha limitada visão sobre uma realidade que atinge, principalmente, a nós, brasileiros, de norte a sul de um país marcado por profundas desigualdades, onde o luxo convive com o lixo, a corrupção frequentemente se aproxima do poder e milhões de pessoas permanecem reféns desse cenário.
Ao sairmos às ruas, deparamo-nos diariamente com alguém pedindo ajuda: nos semáforos, nas calçadas, nas praças. Há quem carregue moedas separadas para esse momento. Outros recusam qualquer doação e perguntam: "Por que não vão trabalhar?". Há ainda os que afirmam: "É para sustentar o vício das drogas."
Provavelmente, existe um pouco de verdade em cada uma dessas posições. Todos nós, em algum momento, já doamos e descobrimos que fomos enganados. Infelizmente, há quem explore a boa-fé alheia para obter vantagens, muitas vezes criminosas. Vivemos em um tempo que nos ensina mais sobre golpes, violência e desconfiança do que sobre solidariedade e compaixão.
Por outro lado, as políticas públicas, por mais importantes que sejam, raramente conseguem atender à dimensão do problema. Em grande parte, limitam-se a amenizar as consequências, sem enfrentar suas causas mais profundas, como a deficiência da educação, a falta de oportunidades e a exclusão social.
Em Poços de Caldas, cidade onde resido, cerca de 30% da população vive em situação de vulnerabilidade social. São aproximadamente 50 mil pessoas enfrentando dificuldades em um município reconhecido por seu elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Ao mesmo tempo, cresce a reclamação sobre o número de pessoas pedindo ajuda nas ruas - realidade que, evidentemente, não é exclusividade da nossa cidade.
Diante disso, volto à pergunta que dá título a este texto.
Acredito que a melhor forma de ajudar alguém é criar condições para que essa pessoa nunca mais precise da nossa ajuda. Entretanto, também acredito que não podemos permitir que a razão sufoque a compaixão. Nem toda necessidade pode esperar por soluções estruturais.
Por isso, na maioria das vezes, escolho doar. Procuro seguir mais o coração do que o julgamento. Se a pessoa ou a instituição merece ou não a ajuda, essa é uma resposta que pertence à consciência de quem recebe. A minha responsabilidade termina no gesto de estender a mão.
E faço uma ressalva: não me considero melhor do que ninguém. Apenas observo que muitos de nós gastamos, sem hesitar, quantias significativas com festas, presentes ou pequenos luxos - o que é um direito de cada um -, mas encontramos enorme dificuldade para destinar uma pequena parcela desses recursos a uma causa social.
Encerro com alguns versos de um poema que escrevi e que resumem, talvez melhor do que qualquer argumento, o que penso sobre a doação:
"Daquilo que te pertence, meu amigo,
Verdadeiramente, nada é teu.
O que tens: teu corpo, teu dinheiro, teus bens,
Foi tudo emprestado por Deus.
Podes ter trabalhado muito e, com merecimento,
Alcançado resultados por tua persistência,
Mas, até para alcançares o êxito,
Recebeste emprestadas a saúde e a inteligência."