Os Stoltenborg: cultivando orgânicos, colhendo credibilidade
Nicolette Stoltenborg conversa com Josiane Borges: A Boa Terra
Josi viu o lugar no Instagram, me mostrou entusiasmada e, sem demora, contatei a prestativa Nicolette. Na manhã do último sábado, botamos Malu e Maria Alice no carro e pegamos a estrada. O destino era um café da manhã sob a esplendorosa luz solar do inverno.
Ao chegarmos ao sítio A Boa Terra, na estrada entre Casa Branca e Itobi, Nicolette nos recebeu do alto de seus 1,92 metro de altura, simpatia e hospitalidade.
Enquanto caminhávamos pela propriedade, ela foi narrando um pouco da história da família. Seu pai, Joop Stoltenborg, deixou a Holanda para se estabelecer no Canadá. Nos anos 1960, atravessou boa parte das Américas a bordo de um Fusca até chegar ao Brasil. Como tantos agricultores de sua geração, iniciou sua trajetória na agricultura convencional. Produzia flores e utilizava os recursos disponíveis à época. Com o passar dos anos, porém, passou a testemunhar os efeitos dos agrotóxicos sobre trabalhadores rurais, consumidores e o próprio meio ambiente. A inquietação transformou-se em convicção. O produtor ortodoxo deu lugar a um militante da agricultura orgânica, convencido de que a terra só retribui generosamente quando é tratada com respeito.
Foi dessa mudança de olhar que nasceu, em 1981, A Boa Terra. Ao lado da esposa Tini, também imigrante holandesa, Joop idealizou uma propriedade autossustentável dedicada exclusivamente à produção de alimentos orgânicos, numa época em que a expressão “orgânico” ainda estava longe de ganhar espaço nas prateleiras dos supermercados e no vocabulário da maioria dos brasileiros.
Hoje, as irmãs Nicolette e Violeta Stoltenborg, com a colaboração do gerente Júlio César, mantêm vivo esse legado. Quatro décadas depois, o sítio permanece fiel ao ideal de seus fundadores. Mais do que cultivar alimentos livres de agrotóxicos, preserva as convicções ambientais de Joop e Tini, promove educação ecológica, apresenta a estudantes uma forma mais consciente de se alimentar e de se relacionar com a natureza e ainda oferece um espaço ecumênico para quem busca paz espiritual longe do ritmo acelerado dos centros urbanos.
Nicolette resume a essência do projeto em uma palavra: credibilidade. É ela o valor mais inegociável do clã. Quem leva um alimento do sítio A Boa Terra precisa ter a certeza de que está consumindo um produto verdadeiramente orgânico, cultivado com transparência, respeito ao solo, às pessoas e às futuras gerações.
Há, também, um irresistível convite aos sábados. O café da manhã mencionado no início deste texto pode ser desfrutado ao ar livre, nas mesas espalhadas pela propriedade ou sobre o extenso gramado, onde toalhas de piquenique desenham um colorido xadrez entre árvores, flores e o canto dos pássaros. Não se trata apenas de comer bem. Trata-se de desacelerar. Respirar. Permitir que o tempo passe civilizadamente.
Enquanto as crianças brincam naquele espaço primorosamente zelado, os adultos conversam sem olhar o relógio. Muitas vezes, pais e filhos acabam redescobrindo o prazer de brincar juntos, construindo memórias que dificilmente nasceriam na correria das cidades. Essa talvez seja a principal iguaria de A Boa Terra: o convívio genuíno.
A mesma filosofia inspira o trabalho de educação ambiental desenvolvido no sítio. Ali, estudantes colocam as mãos na terra, acompanham o crescimento das plantas e participam da colheita. Descobrem, na prática, que alimento não nasce nas gôndolas dos supermercados. Nasce do tempo, da paciência, do trabalho e do respeito pelos ciclos da natureza.
Manter esse projeto vivo também exige perseverança. A distância dos grandes centros consumidores, a logística mais complexa, a produção essencialmente manual e o custo crescente dos insumos tornam a agricultura orgânica um desafio permanente. Mas a recompensa justifica cada esforço: oferecer alimentos realmente saudáveis, preservar o meio ambiente e proporcionar melhores condições de trabalho para quem cultiva a terra diariamente.
Saímos de lá com a agradável sensação de ter encontrado muito mais do que um excelente desjejum. Encontramos um santuário onde alimento, natureza e propósito caminham em perfeita harmonia. Um lugar que nos lembra que cuidar do planeta e do próximo continua sendo uma das mais belas formas de honrar a própria existência.
Nota do cronista: quase no fim da nossa experiência, dona Tini apareceu rapidamente para nos saudar. Gentilíssima, como a filha, proseou conosco por alguns minutos, tempo suficiente para entendermos ainda melhor a dimensão da obra dos Stoltenborg.
Sítio A Boa Terra
Estrada Casa Branca - Itobi (SP-350), km 245
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Contato: (19) 99169-7729
Vídeo da experiência: @lauroborges