04/12/2023 às 16h06min - Atualizada em 04/12/2023 às 16h06min

José Lins do Rego - O Menino de Engenho na cidade termal

FONTE: Hugo Pontes - FOTO: Reprodução Site Prefeitura de Poços de Caldas
Vista parcial da cidade na década de 40
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“O que faz de Poços de Caldas uma civilização legítima, sem espécie alguma de arrivismo, é o seu jeito de mineiro de ser. As termas, os hotéis de luxo, aquele mesmo edifício de 12 andares, tudo se reduz à condição mineira, ao estado de vida simples, íntima, da terra, ao mesmo tempo desconfiado e terno, uma mistura de homem sério com homem cordial”, diz um dos trechos de uma crônica do famoso escritor publicada no Diário de Poços de Caldas, em abril de 1949
 
O autor nasceu no Engenho Tapuá, em São Miguel de Taípu (PB), em 1901, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1957. Era filho de João do Rego Cavalcanti e de Amélia Lins Cavalcanti. 
Formou-se em direito no ano de 1923. Nesse mesmo ano, conhece Gilberto Freire, do qual se torna grande amigo.
É nomeado promotor público, designado para trabalhar em Manhuaçu, Minas Gerais, onde permanece até 1926. Desiste da carreira na magistratura e transfere-se para Maceió. Ali passa a conviver com Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, Aurélio Buarque de Holanda e Jorge de Lima.
 
 
Sua ficção tem caráter memorialista. Reconstrói o mundo em que nasceu e se criou, as histórias que ouviu na infância e a tradição da qual foi testemunha.
Seus livros surgiram dos problemas gerados por um “sistema patriarcal, escravocrata e latifundiário”.
Suas obras mais importantes: Menino de Engenho (1932), Banguê (1934), Usina (1936) e Fogo Morto (1943).
 
Qual não foi a surpresa, quando pesquisava, deparar com uma crônica publicada no Diário de Poços de Caldas, dirigido médico Clodoveu Davis e sua esposa, D. Nini Mourão, de 30 de abril de 1949, cujo título é Homens, Coisas e Letras Caldenses, de autoria do famoso escritor José Lins do Rego. Nela o autor escreve suas impressões sobre a estância no período pós-proibição do jogo e o consequente fechamento dos cassinos e casas de jogos.
 
Homens, Coisas e Letras Caldenses
Tinham-me dito: Poços de Caldas é uma cidade viúva de marido moço e rico. A propósito de tudo, aparece com o defunto marido. E lá vem: ao tempo do defunto e assim, o defunto fazia isto e aquilo.
A imagem era para fixar a falta que fazia à cidade o jogo que era a mola de seu progresso, a grande lavoura e a grande indústria da terra.
A cidade balneária teria que morrer sem os cassinos, sem as fichas, as noites de vigília em torno das mesas de jogatina. Mas toda a censura dos profetas não deu certo. O jogo terminou, fugiram da cidade os morcegos, fecharam-se antros e se houve o silêncio na expectativa da catástrofe, este silêncio não foi quebrado pela queda do corpo no chão. Nada disto. No silêncio da primeira madrugada sem os ruídos dos cassinos, os pássaros do Parque encantado cantaram para as reservas de cachos para o sol novo que cobria o arvoredo.
A cidade não ficou uma viúva, como me pintara o caldense. Nada de viuvez, nada de véu preto de chorões, de saudades mórbidas. A cidade, de cima de seus 1.200 metros, de cima de suas ladeiras de bauxita começou a respirar como terra de gente. Foram-se os notívagos, as figuras sinistras, os fabricantes de desastres, as rodas, os números, os empreiteiros de ruínas. E a cidade ficou na sua verdadeira condição da cidade amiga do homem. Deus lhe dera águas ferventes que curam as mazelas de nosso corpo. O sol quente das entranhas de suas terras minerais limpas, juntas perrengues. Ossos endurecidos e tortos.
O parque maravilhoso acolhe o sol, pelos bancos, velhos, mulheres bonitas, meninos sadios e doentes, todos os que voltaram das termas e ali ficam como a experimentar a força das águas.
Toda a cidade brilha e cheira. As frutas que vendem, o milho verde, as charretes, o sorriso bom do povo da terra, tudo parece uma receita de médico.
A cidade é uma Samaritana das Escrituras.
No Parque maravilhoso está a estátua do Andrada que deu à cidade aquele ar de vila balneária da Europa. Por debaixo das árvores mineiras, o sorriso malicioso do mestre Antonio Carlos nos convida a ver as coisas sem susto.
A fonte, de milhares de variações luminosas, tem alguma coisa de festa veneziana. Mas tudo sem exuberância, sem ferir os olhos.
O que faz de Poços de Caldas uma civilização legítima, sem espécie alguma de arrivismo, é o seu jeito de mineiro de ser. As termas, os hotéis de luxo, aquele mesmo edifício de 12 andares, tudo se reduz à condição mineira, ao estado de vida simples, íntima, da terra, ao mesmo tempo desconfiado e terno, uma mistura de homem sério com homem cordial. A gravidade mineira não exclui uma ponta de malícia um tanto cínica, de bom e salutar cinismo.
O negrinho que dirige a minha charrete me fala do tempo das vacas magras, dos meses do inferno, com os hotéis vazios, sem os veranistas. E me diz: a gente solta os animais no pasto e vai pra escola. A minha mãe quer que eu seja eleitor do dr. Miguel.
Vejo os campos cultivados, as várzeas de milharal, os pomares carregados. O rio que devastava a cidade está dominado na represa de pedra. É agora uma torrente que não faz medo a ninguém. Por toda a parte, a mão do mineiro na lavoura, nas hortas, nas rédeas das charretes, no labor duro da mineração da bauxita. A bela cidade não se cansa de ser bela como uma Pompadour. Ao contrário, persegue a beleza, a capinar os pastos, a retificar os riachos, a plantar árvores.
Os mineiros que fundaram, ou melhor, que povoaram aquelas montanhas, muitos foram homens batidos da Revolução de 1842. E levaram até as terras paulistas, das proximidades, o mesmo espírito anti-imperial. São João da Boa Vista é um município de índole republicana. Os homens que criaram a fortuna da terra tinham a devoção à República, como à santa padroeira. Mesmo em Poços, na casa de um velho da cidade, encontram-se pelas paredes das salas de visita e jantar, os retratos a óleo de Prudente de Morais, de Deodoro, de Floriano. Floriano Peixoto, então, foi ídolo dos homens daquela geração. Li, numa velha fazenda de São João, um documento lavrado em livro dourado, pela própria mão do fazendeiro, que é um testemunho de fé eterna no Marechal de Ferro.
Hoje, Poços libertou-se do seu jacobinismo e se transformou em centro cosmopolita, em autêntica cidade sem paixões perturbadoras. Não fica bem a uma estância de águas termais o uso e abuso da paixão política. A maneira especial de Poços de Caldas é a sua cordialidade no trato. O caldense é um homem que quer agradar, que faz questão fechada de que o visitante tome os seus banhos, cure as suas mazelas e volta no outro ano para o mesmo ritual de duchas e banheiras.
O ar leve da montanha nos ajuda nos passeios que são verdadeiros recantos de uma natureza domada. Não há agressividade alguma nos altos sempre cobertos de vegetação. Mesmo a bauxita se esconde por debaixo da relva. E quando o homem arranha a terra, o colorido do barro roxo anima a paisagem de duchas e banheiras. O ar leve da montanha nos ajuda e não atrapalha a suavidade dos campos. A cidade se liga aos pomares e às lavouras, sem sacrifício algum. Você pode atravessar as estradas, como se andasse pelas vidas urbanas. Dentro da mata fizeram um hotel, onde o homem está na maior intimidade da natureza. Captaram as águas termais e você terá, em domicílio, o suor quente da terra, na cura de seus reumatismos e achaques.
 
 
Por Hugo Pontes - Professor, poeta e jornalista
E-mail: [email protected]

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