15/12/2022 às 15h20min - Atualizada em 15/12/2022 às 15h20min

Consciência social aguda surpreende em livro de Tadeu Rodrigues (entre oito e oitenta)

TEXTO: Chico Lopes - FOTOS: Brand-News
O escritor Chico Lopes, que tem 17 livros publicados e 37 traduções, comentou o livro Depois que as luzes se apagam (Editora Nós), de Tadeu Rodrigues, lançado na noite de ontem (14) na Livraria LIVRUS, em Poços de Caldas. O autor fez também o lançamento, no final de novembro, durante a Flip - Feira Literária Internacional de Paraty.
 
Poços-caldense, Tadeu Rodrigues é autor de A Grande Peça, 2012 e 2015 (Ed. Penalux), Entrelaçadas, 2014 (Ed. Penalux), Sebastião e Clara, 2017 (Ed. Penalux) e A Utilidade do Rascunho, 2019 (Selo doburro). Apresenta o podcast literário “Rabiscos”, criado em setembro de 2018, e é colaborador do Portal Brand-News, onde publica de segunda a sexta a coluna de poesias “Rabiscando”.
 
Eis o texto assinado por Chico Lopes:
 
Um edifício chamado "Fabuloso" que, tal como todos esses edifícios de classe média decadente, é batizado com adjetivos atraentes e falsos, é praticamente um personagem do romance Depois que as luzes se apagam, de Tadeu Rodrigues.
O livro é narrado na primeira pessoa por um porteiro que, contrariando estereótipos de inferioridade e coitadeza, é um homem intelectualizado, um homem que lê e até conhece filmes de Ingmar Bergman. Inverossímil? Nem tanto. O expediente é válido para que creiamos nele como narrador.
 
Ele é o velho zelador do edifício e não nos surpreende quando sabemos que esse homem de 80 anos foi palhaço de circo no passado. No edifício mantém amizade com um garoto de oito anos, Estevão, que possui uma doença rara que o impede de ter uma infância normal - portanto, confinado ao prédio, torna-se um amigo constante, atraído pelas histórias de circo (anacronismo que ainda vive esparsamente de as Tudosismos em cidades pequenas e grandes) que ele conta.
 
O livro é mesmo surpreendente, uma história curta (com uma bela capa de Miguel Thomé) que se vale de frases cortantes, fragmentadas, reveladoras tanto da consciência entrecortada do porteiro quanto de sua visão social do prédio e de seus moradores, uma visão implacável que nos obriga a pensar e a concordar com seus acertos, ainda que sombrios. Poderia ter caído no clichê da pieguice devido a seus personagens de melodrama - um velho palhaço, uma criança doente, cenário propício a muito sentimentalismo -, mas o livro envereda por caminhos mais lúcidos e amargos, pois a consciência do porteiro, sua velhice só consolada pela presença do garoto doente, acaba por tornar convincente toda a narrativa. Que, na verdade, vem dos papéis encontrados por médicos no quarto de um homem morto. As notas íntimas do defunto sem importância social são pungentes.
 
Muito acerto no tom, em frases que, isoladas, terão impacto sobre o leitor, ainda que a brusquidão da pontuação possa ser um pouco desorientadora e alguns cochilos aconteçam ("privilégio de poucos", por exemplo, é uma redundância). No conjunto, somos engolidos pela história, que parece até matéria-prima para um filme neo-realista plantado na terrível atualidade brasileira, cheia de marginalizados e infelizes. Alguém algum dia talvez a filme.
 
Valeu, Tadeu. Espero que o livro cumpra uma longa jornada de presença entre leitores inteligentes e sensíveis.

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