02/10/2020 às 17h24min - Atualizada em 02/10/2020 às 17h24min

A BRONCA DO CRIPA

Marcos Cripa - Jornalista/ mcripa@uol.com.br
NOVO OLHAR PARA A SOCIEDADE
 
É do passado fazer campanha eleitoral para o executivo na qual o candidato ou a candidata anotava num papelzinho quatro ou cinco itens de impacto e buscava convencer os eleitores. Prometia mundos e fundos sem sequer conhecer a realidade orçamentária da prefeitura. Geralmente falava de educação, saúde, asfaltamento, infraestrutura e habitação, o que, convenhamos, são importantes numa campanha eleitoral, mas não somente essas áreas. Felizmente a realidade mudou e a internet abriu um mundo novo de acesso à informação, exigindo dos postulantes outra postura. Não dá mais para fazer campanha olhando apenas para determinados problemas.
 
VIOLÊNCIA CONTRA A CRIANÇA
 
É fundamental, por exemplo, conhecermos a visão e as ações que cada candidato ou candidata propõe em relação à mulher e à criança como avanço nas política públicas dessas áreas. Só para se ter ideia, entre janeiro e junho deste ano, 142 crianças foram vítimas de violência física ou psicológica e outras 25 sofreram violência sexual na cidade. Dados do Conselho Tutelar dos Direitos da Criança e do Adolescente para o período são alarmantes: 1.029 atendimentos (543 na região Centro/Leste e 486 na região Sul/Oeste), onde foram apuradas 1.305 violações tais como conflitos familiares, convívio com dependentes químicos, negligência e maus tratos, além de violência física/psicológica e sexual. A Polícia Militar registrou, no mesmo período, 56 ocorrências envolvendo crianças cuja idade era inferior a 12 anos. Se chegou à PM, é porque os casos eram graves.
 
OLHAR DA SOCIEDADE
 
O problema, portanto, merece toda atenção não só dos candidatos, mas de toda a sociedade. Não se trata aqui de discutir números, mas enfatizar que por trás dos índices existem rostos, cidadãos e cidadãs. Não se trata também de discutir se os casos aumentaram ou diminuíram no último semestre, até porque foi um período atípico de quarentena. O fato de não constar em relatórios, não significa que determinados fatos não ocorreram. Uma vez que as crianças ficaram parte do tempo em casa, isoladas das escolas e creches, locais onde grande parte da violência é identificada, pode ter acontecido subnotificação. Portanto, os dados podem ser maiores ainda. Além do mais, é inaceitável que uma única mulher ou uma única criança seja agredida. 
 
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
 
A violência contra a mulher também pode estar subnotificada no primeiro semestre deste ano. Segundo dados do Centro de Referência Especializado da Assistência Social (Creas), entre janeiro e junho, 243 mulheres foram atendidas e podem ter sofrido violências das mais diversas formas em Poços de Caldas: 40.5 delas a cada mês; 1.35 por dia. Isso significa dizer que, no dia que você estiver lendo esta coluna, uma mulher foi, está sendo ou será agredida. Porém, a percepção é de que, pelo fato de ficarem em quarentena com seus próprios agressores, muitas delas não tiveram como notificar qualquer um dos órgãos de acolhida. A Patrulha de Prevenção à Violência Doméstica (PPVD), ação da PM integrada por duas policiais femininas que visitam as casas de mulheres agredidas, tem atendido, em média, mais de um caso por dia.
 
AINDA FALTA COORDENAÇÃO
 
Essa análise indica a existência de políticas públicas estabelecidas na cidade, porém toda vez que se discute dados de violência contra a mulher ou a criança em Poços de Caldas, alguém cita a atuação relativamente eficaz de órgãos do estado, do município e da própria sociedade. Não duvido disso, mas acredito que é preciso fazer mais e mais e o próximo prefeito pode - e deve - assumir essa liderança de forma eficaz. Alguém precisa liderar para fazer com que as reuniões mensais dos vários atores deem o resultado que se espera delas para reduzir esses índices. O prefeito, como gestor público, tem a obrigação de tratar essas questões como prioridades. Se isso já acontecesse, não teríamos tantos feminicídios na cidade e violência contra as crianças como temos visto nos últimos meses. Por mais que se diga e se justifique, a verdade é que a cidade ainda se ressente de uma coordenação municipal no que diz respeito a atenção às mulheres e às crianças.
Contribuição
Essa coluna é uma contribuição aos candidatos a prefeito e dedicada a todas as mulheres e crianças que foram e são agredidas. Direitos Humanos é questão inegociável e assim deve ser visto por cada um dos candidatos e candidatas.
Essa coluna foi escrita com a contribuição da jornalista Beatriz Cripa.



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