01/03/2021 às 16h59min - Atualizada em 01/03/2021 às 16h59min

Doce Vida

Tadeu Rodrigues, advogado, escritor e apresentador do podcast Rabiscos - @tadeufrodrigues
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INTERCALANDO AS POESIAS NA COLUNA RABISCANDO, IREI APRESENTAR PEQUENOS CONTOS E CRÔNICAS, BEM COMO ENSAIOS LITERÁRIOS, DE MODO QUE POSSAMOS ENRIQUECER ESTE ESPAÇO E AMPLIAR AINDA MAIS A VOZ LITERÁRIA
 
 
O que a vastidão dizia ao menino, que olhava o céu, que esperava os padrinhos chegarem com seu presente de aniversário, era um emblema do que mais perto ouvia sua avó murmurar; quem sabe rezas com pedidos de forças para cuidar do neto órfão de pai e mãe, não pelo abandono, por infortúnio acidental com um caminhão cravado entre os corpos sem vida que não explicaram muito ao filho único de três anos.
 
O que seriam os presentes infalíveis que chegavam com um casal jovem e sorridente um dia antes da data certa havia 10 anos? Sem aviso de véspera. Sem comunicado. Sete anos de solidão era capaz de preencher o quê?
Na varanda do casebrinho da roça, enquanto a avó separava feijão para que não mordessem pedras, ele olhava afoito o horizonte que nada trazia.
 
- Calma. Já já chega.
 
Ele olhava um dos dentes faltantes dela, o da frente, e achava graça nos assobios que faziam algumas sílabas. Quem ouvisse aquela magricela levemente corcunda se preocupar tanto com os dentes do neto, pensaria numa boca lustrosa e branca.
 
Havia uma pequena porção de terra entre seus dedos encardidos. O Zebinha roçava entre suas pernas soltando pelos que nunca o irritavam, não fosse a ansiedade daquele dia. Vestido de perspectiva, ludibriado por si em alegoria do que chegaria: um carrinho de controle, um barquinho que não afunda, uma bola, uma roupa; roupa não.
 
- Amanhã vamos fazer o bolinho.
 
Ele já tinha chamado dois vizinhos. Não queria eles ali à chegada dos padrinhos, porque queria ser o primeiro a brincar com o que quer que fosse.
 
- E guaraná?
- Também. E pipoca.
Ele sorriu para ela.
 
Podia haver menos nuvens no céu, pensava sem saber. Quando chovia a estrada de terra não deixava ninguém ir e vir, ainda mais esses carros metidos da cidade.
 
O almoço foi na varanda mesmo, a avó deixou. Arroz, feijão, ovo e farinha. Como que se comesse rápido acelerasse a chegada do presente.
 
Será que dá tempo de eu ir lá ver os porcos? Dá sim. E de cima dá para ver quem aparece na cerca. Foi devagar por aflição. Porque ao voltar à casa lhe esconderia aos olhos a agonia. Perto do chiqueiro não se incomodou com o cheiro. Os três não tão roliços precisavam de mais lavagens pro abate: carne separada para avó e neto e outro tanto para dar em troca nas roças vizinhas.
Sentado na mureta, entristecido pelos bichos cabisbaixos que pouco se movimentavam, tudo ali era vasto. Dentro e fora. O mato queimado pela queixa solitária de um garoto que impendia voz. Os padrinhos não cuidariam dele na falta da avó já bem idosa. Ficaria a mercê da escola rural e pequenina que parecia mais acumular papéis na parede de barro do que aprendizado.
 
Voltou seus olhos à casa, que estava menor dada à distância. O deserto da viela, empurrando a poeira para cima, dizia algo. O sol agora aparecia tímido.
 
Pé ante pé sentou-se novamente na varanda, dessa vez com as costas para o outro lado. Pegou seus boizinhos de batatas e palitos, fez fazendinha justa ao seu sonho. Um enredo real que em certa medida falava sobre amor por qualquer tipo de futuro. Entretido fez um caminho de pedras, em um formato de coração, onde duas pedras avermelhadas e maiores eram ele e a avó. Bem no centro.
Ela não dividia com o neto a impaciência que também sentia. Suas rugas na janela, olhando disfarçadamente o menino, acolhiam o seu peito falando em silêncio sobre esperança.
 
Quando encostou a cabeça na parede, sonolento, a avó lhe esquentou leite que tomava toda tarde, com gosto de fogão à lenha.
 
- Meu menino tá virando homem - um cafuné na cabeça como se firmasse a sua presença.
- Eu já sou homem.
- É sim um hominho de quase dez anos.
 
O leite quente aumentou o sono. Olhava o céu com nuvens vagarosas e não escondia os ouvidos para que ouvisse o carro quando chegasse. Eles não falhavam nunca. A certeza da chegada enternecia os fios brancos da avó.
 
O menino dormiu o sono dos nervosos; nuca colada ao chapisco abaixo da janela. Quando abriu os olhos a lua nascia. A avó dormia na cadeira ao lado.
Ninguém apareceu na estrada.


 
 










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