04/11/2021 às 16h05min - Atualizada em 04/11/2021 às 16h05min

A fome e o roteiro da empulhação

Marcos Cripa - Jornalista
mcripa@uol.com.br
Figura meramente ilustrativa - Reprodução Google

Há momentos na vida que, definir determinada reação humana é quase impossível. Quando se trata de expressar alegria, amor, felicidade e compreensão é fácil e prazerosa a definição, mas deparar-se com a fome explícita, não só é chocante como é desalentador para uma Nação. E olha que nós, que estamos empregados e nos encontramos do lado de cá do balcão, alimentando-nos, em média, quatro vezes ao dia - café da manhã, almoço, jantar e um lanche antes de ir pra cama - ainda reclamamos. Imagine só a situação de milhões de pessoas que buscam nos açougues brasileiros pedaços de ossos para compor a sopa de seus familiares no final do dia; dos que chafurdam as caçambas de caminhões de lixo em busca de restos de alimentos, ou então os que bradam entre prédios para alguém fornecer “um pão e um pouco de leite” dizendo: É fome...é fome.
Não são imagens ficcionais, meramente retóricas. Elas acontecem e se reproduzem às centenas em inúmeras regiões do Brasil, especificamente nas cidades do Rio de Janeiro, Fortaleza e Brasília, onde as cenas reais foram captadas não por cineastas, mas por outros cidadãos também desesperados e famintos. A isso damos o nome de realidade. E se você, aqui em Poços de Caldas, é um dos 69,49% dos eleitores que votaram no atual presidente da república, sinta-se também responsável por ter contribuído para consolidar essa situação. Sinta você o desconforto humanitário porque o presidente que você ajudou a eleger não está nem aí para a situação. Tanto é verdade que até o programa Bolsa Família ele extinguiu sem antes estabelecer novos mecanismos de acolhimento aos desempregados e famintos desse país.
 
Mas, enquanto a vida esbarra em dramas reais como a fome e o desemprego, e afeta diretamente homens, mulheres, idosos e crianças, uma ficção começa a ser engendrada, principalmente através das redes sociais, num exímio roteiro típico de folhetim que cria narrativas que interessa tão somente ao personagem. Exatamente igual ao que ocorreu nas últimas eleições. Transforma-se o que é falso em verdadeiro. Falo especificamente daquele que deseja candidatar-se, em nossa cidade, ao cargo de deputado estadual ou federal. Invariavelmente cada postulante (candidato a candidato) durante décadas não demonstrou qualquer aderência próxima ao cidadão, muito menos aos problemas e anseios da sociedade.
Porém, de uns tempos para cá, cada um à sua maneira passou a divulgar o personagem de bom pai, bom marido, bom religioso, bem relacionado com políticos em Belo Horizonte e Brasília, defensor da Justiça e que se dedica altruisticamente ao povo, ou seja, demonstra ser aquele que se entrega ao outro sem esperar nada em troca. Nada mesmo? Nem voto? De quem antes mantinha distância, agora interessa estar próximo, juntinho, lado a lado. Ah o povo; tudo pelo povo. Quanta desfaçatez!
 
Qualquer manual de roteiro cinematográfico exemplifica claramente como se comporta esse personagem, esse candidato a candidato, para atrair público - na linguagem política, para atrair o povo. Manuais preconizam uma série de tópicos para a construção de roteiros e os principais que estão sendo seguidos são os seguintes: 1) planejamento, 2) desenvolvimento da história, 3) definição de objetivos, 4) argumentação, 5) curva dramática (família/religião/sociedade), e 6) desenvolvimento de cada cena. De um lado, segue-se exatamente o roteiro cinematográfico, de outro, manuais de campanhas políticas. Tudo na expectativa de um resultado certeiro e avassalador de vitória.
É bom lembrar, no entanto, que nem todo roteiro transforma-se em filme e nem todo roteiro filmado resulta em bom filme.
Até aqui, vejo péssimos roteiros que, se filmados, devem gerar o que conhecemos por “Filme categoria B”. Vamos aguardar e conferir.    
 
 
Foie gras
 
A exemplo da forma desumana que os franceses fazem para engordar gansos, empurrando milho goela abaixo, o lixo nuclear estocado em Interlagos (SP), acabará vindo para Caldas (MG). Toda reunião com a comunidade tem servido apenas para "passar pano". Nenhum compromisso concreto. Quando menos se espera, foie gras. E a torta aporta na região.




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