13/09/2021 às 15h29min - Atualizada em 13/09/2021 às 15h29min

Pra não dizer que não falei das flores

Jornalista, publicitário, escritor e professor universitário
wiliam.oliveira@uol.com.br
Figura meramente ilustrativa - Reprodução Google

Pego meus óculos tentando enxergar melhor o que acontece no “nevoeiro” da política nacional.
Lá fora, as queimadas são responsáveis também por deixar tudo em névoas e a fuligem atinge ruas e casas.
Vivemos um momento de calor “ensurdecedor” e estiagem. Muitos “colocando fogo” e poucos tentando apagar incêndios. Muito fogo, pouca água e nesse “deserto”, o calor pode provocar miragens. Assim...
 
AO QUE PARECE...
 
O presidente Bolsonaro foi eleito em 2019, não em razão de suas virtudes, mas pelo sentimento antipetismo que tomou conta do país e até hoje está impregnado em boa parte da população brasileira.
Ao assumir, o presidente criou grande expectativa de ser o “salvador da pátria” e expurgar muitos problemas nacionais, entre eles, o mais grave, a corrupção em suas diversas manifestações, e, entre elas, a farra dos investimentos públicos bilionários em mídia, notadamente nas Organizações Globo, através de recursos públicos da Petrobrás, da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil, apenas para citar os mais conhecidos e que já ocorriam há dezenas de anos.
A “briga” com as Organizações Globo, o maior conglomerado de mídia e comunicação do Brasil e da América Latina, fechou muitas portas do governo para a divulgação de suas ações.
Mais que isso, o “fogo” se alastrou para a área artística e para muitos outros grupos de comunicação, em um momento em que as redes sociais foram captando a cada dia mais recursos da iniciativa privada.
Como resposta ao “fechamento das torneiras”, o que a “grande mídia” fez foi culpar o governo atual por todas as “mazelas”, por exemplo, as mortes provocadas pela Covid-19 (“Bolsonaro é genocida”), que acabou por gerar a CPI que tem buscado encontrar algo que incrimine o presidente.
 
Por outro lado, as obras, os projetos, as ações de melhoria do governo federal se tornaram desconhecidas da maior parte da população. Só apareceram as “brigas” do governo contra seus opositores, que foram crescendo, em virtude também do comportamento reativo do presidente, que, em inúmeras oportunidades, acabou por esquecer de sua importância para o país, sobrepondo mais o “Jair” do que o chefe do executivo.
Se por um lado a “fala espontânea, popular, informal, simples, objetiva” do presidente foi responsável pelo apoio popular, por outro, acabou por ferir “gente grande” em setores estratégicos do país. Como exemplo, a “briga” contra alguns ministros do Supremo Tribunal Federal que ainda terá muitas etapas a serem analisadas.
Resumindo o cenário: desde 2019, Bolsonaro só tem “brigado” com alguns setores estratégicos (até para justificar as razões de ter sido eleito), porém, mesmo que muitas destas disputas tenham sido meritórias, seu governo foi perdendo “rounds”, já que “contragolpes” vieram, na disputa do “quem pode mais, chora menos”.
 
Em outra análise, parece ter faltado planejamento das suas ações. Muitos especialistas defendem a tese de que ele poderia ter articulado estrategicamente o seu posicionamento em um diálogo aberto e franco com os governadores dos Estados, para obter deles, o respaldo necessário nas suas “disputas”, o que infelizmente, parece não ter ocorrido.
Na mesma linha de raciocínio, o presidente poderia ter utilizado, também em vários momentos, a “cadeia de rádio e TV” para transmitir à população, o “seu lado” da história.
 
Em um universo imagético, não é a palavra escrita que chega até aos corações e mentes, como recentemente ele utilizou ao declarar que “falou algumas palavras no calor do momento e que o mais importante era a união entre os poderes”. Parece ser mais um equívoco seu na área da comunicação, já que milhões de brasileiros “compraram” a briga do presidente contra o STF e mesmo que a ponderação se fizesse necessária, acertou no “que fazer”, mas errou no “como fazer”, decepcionando muitos dos seus apoiadores.
Enfim, como o sentimento antipetismo ainda é forte, provavelmente, na cabeça de milhões de cidadãos seguir em frente é melhor que voltar e assim, o presidente Bolsonaro ainda pode se fortalecer, dependendo muito da sua capacidade de assumir os golpes que tem levado e de suas estratégias futuras na condução do seu governo, notadamente, as de caráter econômico, para citar apenas um exemplo, os aumentos constantes da gasolina e seus efeitos “cascata”.
Verdadeiramente, não importa o que milhões de “cientistas políticos”, de “influencers”, jornalistas, sociólogos etc estão traduzindo do atual momento político, incluindo esse modesto artigo, mas sim, como o cidadão comum tem interpretado tudo o que vem ocorrendo. Afinal, as classes mais populares definem no voto o que pensam e isso somente em 2022. Além disso...
 
PODE NÃO SER O QUE PARECE...
 
Na política, o que vemos na frente das câmeras, não é exatamente o que acontece em seus bastidores, compreendendo ainda que “política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”.
Nessa premissa, tudo pode ser estratégico no comportamento do presidente.
Bolsonaro teria mostrado sua força de mobilização no último dia 07 de setembro, demonstrando para a Câmara, Senado e STF e notadamente, para a esquerda, que o seu governo tem o apoio da maioria da população.
O fato de Bolsonaro, um dia após as manifestações, ter “arreado” e “amarelado”, retirando o peso das acusações contra o STF e se fazendo de pacificador, seria mais uma “jogada de xadrez” que somente será percebida, daqui a algum tempo, em lances que ainda virão.
 
O presidente estaria dando um passo atrás, para dar dois à frente?
Bolsonaro estaria atraindo a atenção toda para ele, como alvo a ser vencido e, no período mais próximo das eleições presidenciais, ele lançaria outro nome (o atual Ministro dos Transportes, Tarciso?), desfocando totalmente o alvo da esquerda que concentra toda a artilharia no presidente e que também aposta na polarização, no apoio da mídia, dos artistas, de certos setores da sociedade civil, para deixar o presidente “nas cordas” e ganhar a luta por “nocaute”.
A esquerda queria ver “o circo pegar fogo” e o “Bolsonaro golpista” seria o responsável pelo desrespeito à democracia e a constituição e o seu impeachment seria o caminho natural. Porém, com a sua atitude de busca pela harmonia entre os poderes, acima das brigas com o STF e, ainda, utilizando como mediador o improvável Michel Temer, Bolsonaro desmontou o palco da esquerda.
Como exemplo, na recente entrevista do “Zé Trovão” (líder dos caminhoneiros?) para o Pânico, este afirmou, após o episódio do fim da paralisação do dia 08 de setembro, que “o presidente era um dos maiores estadistas do mundo”, apoiando Bolsonaro, ao contrário do que muitos imaginavam.
 
Muito trovão, pouca chuva?
 
Retiro os óculos e olho novamente para o céu. Estamos em setembro, aguardando o fim das queimadas, a chegada da chuva e uma nova estação: a primavera.
Assim, “pra não dizer que não falei das flores”, afinal, “somos todos iguais, braços dados ou não”, quem sabe o que estamos vivendo na atualidade, não seja o fim, mas sim, o início de uma boa nova, quando cada um dos cidadãos brasileiros irá assumir a responsabilidade de ser mais um jardineiro a espalhar sementes de um novo tempo buscando cuidar melhor desse nosso imenso jardim, e, como filhos desse solo, amar ainda mais essa nossa mãe gentil, Pátria Amada, Brasil. Maktub!
 
(Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, o Geraldo Vandré, autor da música “Pra não dizer que não falei das flores”, completou 86 anos nesse domingo, 12/09/2021).

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