02/12/2020 às 17h43min - Atualizada em 02/12/2020 às 17h43min

“Profetas ou Conjurados?”

Na Serra da Mantiqueira, em local famoso por ser alvo de romarias ao “Santuário do Senhor Bom Jesus de Matozinhos”, ergue-se o chamado “Adro dos 12 Profetas” - que do alto contemplam a cidade mineira de Congonhas, outrora “Congonhas do Campo”. Em 1800, naquela “remota paragem”, Antonio Francisco Lisboa - o genial “Aleijadinho”, iniciou sua última grande obra talhando em blocos de “pedra sabão” ou da pedra esteatita, os vultos de seus doze Profetas bíblicos, medindo, cada um, mais de dois metros de altura.
Para executar esta gigantesca obra, cabe notar que não houve encomenda oficial conhecida. Como “pagamento” foram aceitas irrisórias “diárias” - suficientes, apenas, ao sustento do artista e de seus escravos, ou de eventuais auxiliares e aprendizes. Ao transportar-se de sua oficina ao seu improvisado alojamento noturno, o “Aleijadinho” ocultava sua feiúra em ampla capa de pano preto, e chapéu de grandes abas caídas.  
Nada conseguiria deter as indevassáveis intenções do artista que, por “hipótese de trabalho”, tinha por meta erguer uma eterna homenagem aos heróicos “cabeças” do movimento precursor da “Inconfidência” -  que era libertária da terra natal, mineira e profundamente brasileira.
Esta “versão”, talhada na pedra por Antonio Francisco Lisboa, foi sugerida e lançada no texto do meu livro “Profetas ou Conjurados?” (cuja edição já está esgotada). A origem desse tema surgiu em Congonhas, em momento de contemplação dos doze “Profetas”, associados com a lembrança do fato de terem sido, por Sentença, onze os condenados à morte, ou seja, o Alferes “Tiradentes” e outros dez rebeldes “Inconfidentes”.
Resta observar que o 12º personagem - o “Profeta Amós”, um rude pastor cujas feições são as de um mestiço mulato, que veste roupas proletárias -, usando calça arregaçada, e se abriga com pele de ovelha. Amós leva à cabeça um barrete frígio - um símbolo da República, então adotado por revolucionários franceses - ali evocados pelo “Aleijadinho”, que em Congonhas fez uma “auto representação” e se revê, quando jovem e saudável, sem sinais da doença que o deformou na velhice.   
Além do Amós, os demais vultos de onze “Profetas” possivelmente evocam os principais líderes que compartilhavam o silêncio e aprovavam os ideais libertários do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o “Tiradentes” que, militando no Regimento de Cavalaria Regular - ou “dos “Dragões” de Vila Rica (atual Ouro Preto), certamente conhecia e admirava a obra do escultor Antonio Francisco Lisboa.   
O tema “Aleijadinho” já deu motivo a polêmicas, mas seus “Profetas”, em Congonhas, continuam indagando e contemplando a passagem dos séculos, talvez para sempre.
 
Por Isolde Helena Brans Venturelli - Artista plástica, historiadora e pesquisadora

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