Por que dois pacientes com o mesmo câncer podem responder de forma diferente ao tratamento?
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Avanços na oncologia de precisão mostram que características moleculares de cada tumor podem influenciar a resposta às terapias e orientar estratégias mais personalizadas
Dois pacientes com o mesmo tipo e estágio de câncer podem apresentar respostas completamente diferentes ao mesmo tratamento. Embora a localização do tumor e o diagnóstico sejam informações fundamentais para definir a conduta médica, a biologia individual de cada tumor, incluindo alterações genéticas presentes nas células tumorais, pode influenciar a evolução da doença e a eficácia das terapias.
Essa diferença está relacionada à heterogeneidade tumoral: mesmo tumores classificados dentro da mesma categoria podem apresentar características moleculares distintas, com mutações, alterações em vias celulares e mecanismos de resistência diferentes.
Com o avanço da medicina de precisão, a análise genética passou a ser uma ferramenta importante para compreender essas diferenças. Ao identificar alterações específicas no DNA do tumor, médicos podem ter mais informações para selecionar terapias direcionadas e avaliar quais estratégias apresentam maior potencial para cada paciente.
Um estudo publicado em 2024 na revista Nature Communications analisou dados genômicos e clínicos de mais de 78 mil pacientes com 20 tipos de câncer e identificou associações entre alterações genéticas específicas dos tumores e diferentes respostas a tratamentos, incluindo terapias-alvo, quimioterapias e imunoterapias. Os resultados reforçam que características moleculares podem ajudar a explicar por que pacientes com o mesmo diagnóstico apresentam trajetórias diferentes.
Para Raphael Parmeggiani, vice-presidente de Assuntos Científicos em Oncologia da América Latina da Centogene, a evolução da oncologia está justamente na capacidade de enxergar essas diferenças.
“Durante muito tempo, o câncer foi tratado principalmente a partir do órgão onde ele se originou. Hoje sabemos que dois tumores do mesmo tipo podem ter comportamentos biológicos completamente diferentes. A análise molecular ajuda a entender essas particularidades e a buscar estratégias mais adequadas para cada paciente”, afirma.
Da classificação do tumor à compreensão da sua biologia
A medicina de precisão mudou a forma como os especialistas interpretam o câncer. Em vez de considerar apenas características visíveis, como tamanho ou localização do tumor, a abordagem molecular investiga alterações genéticas que podem influenciar o crescimento da doença e a resposta aos tratamentos.
Segundo uma revisão publicada em 2024 na revista Trends in Cancer, a oncologia de precisão depende da identificação de biomarcadores capazes de indicar quais pacientes têm maior probabilidade de responder a determinadas terapias. O trabalho destaca que o sequenciamento genético de tumores já é utilizado para identificar alterações associadas à escolha de tratamentos em diferentes tipos de neoplasias.
Além das mutações no tumor, outros fatores também podem influenciar a resposta terapêutica, como características do microambiente tumoral e a interação entre as células cancerígenas e o sistema imunológico.
“Hoje, entender o câncer significa olhar para uma combinação de fatores. O tumor carrega informações genéticas que ajudam a explicar seu comportamento, mas essas informações precisam ser interpretadas dentro do contexto clínico de cada pessoa”, explica Parmeggiani.
A evolução das tecnologias de sequenciamento e análise de dados tem ampliado o acesso a informações que antes não estavam disponíveis na prática clínica. Estudos recentes mostram que a integração entre dados genômicos e informações de tratamento pode contribuir para decisões terapêuticas mais individualizadas.
Para o especialista, o futuro da oncologia passa por uma compreensão cada vez mais detalhada das características únicas de cada tumor.
“A medicina de precisão não significa substituir protocolos estabelecidos, mas aprimorar a tomada de decisão. Quanto mais conhecemos a biologia da doença, maior é a capacidade de oferecer estratégias alinhadas às características de cada paciente”, conclui.