Ofício enviado à GSC Eventos tem como base o tombamento estadual do Conjunto Urbano Hidrotermal e Hoteleiro, aprovado em abril de 2026; empresa reafirma seu compromisso com a preservação do Parque José Affonso Junqueira, contesta a ausência de fundamentação técnica para a vedação do Festival, e propõe a construção de um plano conjunto de compatibilização entre patrimônio histórico e uso cultural
Um ofício assinado pelo presidente do CONDEPHACT, Alisson Tavares Rosalino e enviado à GSC Eventos Especiais no início do mês de maio, diz que o órgão não autorizará o uso do Parque José Affonso Junqueira para a edição do Flipoços 2026. O documento foi levado ao conhecimento do presidente da Câmara Municipal de Poços de Caldas, Douglas Eduardo de Souza, e desde ontem (14/7) vem repercutindo na imprensa local - uma vez que o Festival Literário Internacional de Poços de Caldas (Flipoços), realizado há três anos consecutivos no Parque José Affonso Junqueira e entorno do Palace Hotel, tornou-se um dos maiores eventos culturais da cidade e região. Só no ano passado, a Vila Literária, erguida no espaço, recebeu um público estimado em mais de 60 mil pessoas ao longo de nove dias de programação;
mais de 250 convidados, entre escritores, pensadores, artistas e especialistas; além da participação de 50 expositores, entre editoras e livrarias, consolidando-se como um dos mais importantes eventos literários do Brasil.
O CONDEPHACT - Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e Turístico - é um órgão colegiado vinculado à Secretaria Municipal de Planejamento e Desenvolvimento Urbano, responsável por analisar e emitir pareceres sobre diretrizes, políticas públicas e medidas voltadas à defesa, preservação e difusão do patrimônio cultural do município. Entre suas atribuições estão decisões sobre inventários, tombamentos e registros de bens culturais.
O Conselho é presidido por Alisson Tavares Rosalino, que assumiu o cargo em março de 2026, sucedendo o arquiteto Antônio Carlos Lorette.
O argumento do CONDEPHACT tem como base o tombamento estadual do Conjunto Urbano Hidrotermal e Hoteleiro, aprovado em abril de 2026. O Relatório de Vistoria elaborado pela Secretaria Municipal de Turismo sobre a edição de 2026 e assinado pelo órgão, enumera os motivos da manifestação contrária à realização do Flipoços. O documento aponta:
. Utilização de áreas gramadas para instalação de estruturas e mobiliário;
. Ocupação de áreas cuja utilização havia sido desaconselhada em orientações anteriores;
. Permanência de estruturas por período prolongado (incluindo montagem e desmontagem);
. Instalações elétricas consideradas improvisadas ou em desconformidade com normas técnicas;
. Reincidência de situações já apontadas em edições anteriores.
Empresa cobra justiça e igualdade na aplicação das regras
A empresária e curadora do Flipoços, Gisele Ferreira, rebate as acusações, fala em perseguição e cobra justiça e igualdade na aplicação das regras. Segundo ela, a GSC Eventos Especiais tem 37 anos de atuação em Poços de Caldas e o Flipoços acontece há mais de 20 anos “com conduta ética, seriedade e responsabilidade”. Gisele argumenta que o Festival atingiu reconhecimento nacional e internacional, colocando a cidade no cenário nacional nos setores de Educação e a Cultura.
A estrutura do evento, segundo ela, procura contemplar cada detalhe para atender crianças, jovens e adultos, dando oportunidades iguais a todos.
A organizadora ressalta que a questão estética, visual e estrutural da Vila Literária respeita a arquitetura do local e que o período de permanência da estrutura é condizente com o custo alto e proporcional à montagem. Há quase 22 anos, lembra, o Flipoços acontece no mesmo período (final de abril e começo de maio), alinhado ao calendário nacional do mercado editorial.
Adequação às determinações dos órgãos de preservação
Segundo o ofício, o Conselho afirma que a decisão aconteceu por um histórico de dificuldades de adequação às determinações dos órgãos de preservação. “O Parque é um bem cultural tombado e as diretrizes estaduais determinam a preservação de elementos paisagísticos, vegetação, monumentos, fontes e jardins históricos. Além de restrição da circulação de pessoas às vias pavimentadas, limitação da instalação de estruturas sobre gramados ao período entre maio e setembro. E ainda a necessidade de preservação da integridade física e visual do conjunto.”
O documento destaca que o Flipoços acontece tradicionalmente em abril, período expressamente distinto daquele admitido pelas diretrizes para instalação de estruturas em gramados. O Parque não deve ser visto apenas como “um espaço livre para eventos, mas como um bem cultural cuja própria paisagem constitui objeto de preservação”.
Por sua vez, Gisele afirma que a Vila Literária, no formato montado há três anos, embeleza muito mais o local e está harmônica com os prédios históricos ao entorno. E é absolutamente bem recebida pela população e pelos inúmeros turistas de todas as partes do Brasil.
Sobre as críticas do CONDEPHACT, ela se diz constrangida com a falta de argumentação que prove e comprove que o Flipoços cause danos ao Parque José Afonso Junqueira. Para Gisele, as cadeiras em cima da grama, um dos argumentos citados, não podem ser motivo para tentarem impedir a realização do Flipoços 2027 no Parque.
Gisele ainda afirmou confiar na prefeitura e nas secretarias municipais de Cultura e de Turismo. “Certamente reconhecem o bem que o Flipoços traz para toda cidade, para a economia, para a população e turistas. Queremos que a isonomia e a justiça sejam feitas”, disse.
Pagamentos e contrapartidas
O documento diz que a GSC Eventos Especiais não destinou contrapartida para a preservação do Parque. Como comparação, citou o Poços Classic Car, que utiliza o espaço por apenas 4 dias (contra 9 da Flipoços, sem contar montagem e desmontagem) e contribui com cerca de R$ 15 mil em doações de equipamentos e mudas.
Em resposta, Gisele informou que a GSC efetuou em 2026 o pagamento de R$ 23.670,00 pela utilização do local. Bem como nos anos 2024 e 2025, além de outros encargos, impostos e taxas recolhidos à prefeitura. E ainda como contrapartida, ao longo destes quase 22 anos do Festival doou mais de 20 mil livros para o município e outras entidades carentes da cidade, dentre elas, o presídio municipal.
Reavaliação da decisão
A prefeitura afirma que a eventual reavaliação da decisão dependerá da demonstração objetiva de que futuras propostas de utilização serão plenamente compatíveis com as diretrizes de preservação. “Não houve vedação à realização do evento no município. Mas apenas a manifestação de inadequação do Parque José Affonso Junqueira para sediar futuras edições enquanto persistirem incompatibilidades entre o formato atualmente adotado e as diretrizes de preservação vigentes”.
Por sua vez, a GSC Eventos reafirma seu compromisso com a preservação do Parque José Affonso Junqueira, contesta a ausência de fundamentação técnica para a vedação do Festival, e propõe a construção de um plano conjunto de compatibilização entre patrimônio histórico e uso cultural.
NOTA - Na coluna Opinião do Leitor, o ex-secretário de Cultura de Poços (2013/2016), há 10 anos como secretário de Cultura de Machado, membro da Academia Poços-Caldense de Letras e Delegado Nacional de Cultura, professor João Alexandre Moura, se manifestou em relação à polêmica envolvendo o CONDEPHACT e o Flipoços.
Link da matéria: https://brandnews.com.br/noticia/20870/uma-reflexao-sobre-a-manifestacao-do-condephact-contra-o-flipocos