Stela Novo Hotel: a janela indiscreta

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Stela Novo Hotel: a janela indiscreta
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Num dos prefácios de um livro que estou editando, o amigo Christian narra a trajetória da nossa amizade e, claro, relembra alguns causos dessa linha do tempo de afinidades iniciada em 1994.

Recém-formados, em 1998, fomos juntos fazer um curso jurídico em São Paulo. As aulas aconteciam nas noites de sexta-feira e durante todo o sábado, num envidraçado prédio da Avenida Paulista, bem em frente ao Conjunto Nacional. Nossos bolsos minguados só permitiam esfihas de R$ 0,99 para as refeições. Devorávamos uma enormidade delas. Mas não é com as esfihas que o Christian me provoca a escrever, e sim com a nossa hospedagem nas fervilhantes noites de sexta para sábado.

Pernoitávamos nas proximidades, num estabelecimento que cabia em nossas arrochadas finanças. O eleito foi o, digamos, modestíssimo Stela Novo Hotel, no número 1.047 da lendária Rua Augusta. Na época - e até hoje -, a região do Baixo Augusta é conhecida pela prostituição nas ruas e boates dos arredores. Descer aquele trecho da Augusta numa sexta-feira, já alta noite, é testemunhar uma eclética fauna humana ofertando variadas carnes, fantasias e fetiches.

Embora cansadíssimos, nem sempre o sono era fácil. As janelas prosaicas não impediam que ouvíssemos acordos e desacordos, quase nunca silenciosos, entre clientes e meretrizes. Dos corredores da hospedaria também ecoavam grunhidos lascivos daqueles mais afoitos, que começavam o ato antes mesmo da chegada ao recesso dos lençóis. Ainda: nos quartos vizinhos, os mais performáticos faziam questão de que todos os hóspedes acompanhassem auditivamente seus desempenhos libidinosos.

Vai daí que os anos se passaram e hoje, se preciso for, eu e Christian podemos nos abrigar num hotel um tiquinho melhor, talvez até num que tenha papaia e ovos mexidos no café da manhã - no Stela, nem desjejum havia. Colchão, travesseiro e chuveiro, é certo, estarão em outro patamar. Nem o ruído do ar-condicionado será ouvido.

Talvez o progresso pessoal faça justamente isso com a gente: vá nos apartando, sem alarde, de certas mundanidades. Para o bem e para o mal. Ganha-se conforto, silêncio, privacidade, edredons perfumados e croissants no café da manhã. Perde-se também alguma intimidade involuntária com o mundo bruto, barulhento e improvisado. A vida melhora e, ao melhorar, vai nos afastando de precariedades, excessos e excentricidades que um dia nos assustaram, mas que seguem compondo, gostemos ou não, o condimentado e contraditório caldeirão humano do viver e conviver.

 

 

 

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