Quando o café escolhe a companhia
Mônica Miglioranzi Frison e Angela Caruso, do Batom na Xícara, com Adinan Nogueira no casarão centenário que abriga o Ollivia
Dizem os mais sábios que não existe acaso ou coincidência, mas o universo conspirando para melhorar o que está por vir e que nem sempre é o que planejamos. Por uma causa nobre, nas últimas horas antes do encontro, nosso convidado teve que se ausentar da cidade. Entretanto, um café entre velhos amigos estava adiado havia quase um ano e, amigo que é amigo, topa programa de última hora. Afinal, abraço, bom papo e café quente, numa tarde fria, quem não precisa?
Nosso encontro aconteceu na antiga adega do centenário casarão da Chácara Viti, hoje o salão do restaurante Ollivia Gastronomia, comandado pelo chef Henrique Benedetti. No início do século passado, a propriedade construida por Nelo Viti com ajuda de amigos da colônia italiana, produzia vinhos artesanais com as uvas colhidas na própria chácara que marcaram história na cidade. Os antigos barris de madeira, usados no armazenamento dos vinhos até que atingissem seu ponto de maturação para serem servidos, permanecem no local. Eles compõem, junto com os tijolos aparentes em meio às vigas de madeira, a arquitetura toscana, terra de origem do antigo proprietário. Um ambiente que nos transporta a outras épocas, e como bons viajantes do tempo, nos permitem “espiar” a familia Viti reunida em torno da mesa de pães, frutas, queijos e vinhos, fazendo história.
Adinan Nogueira, antigo amigo da familia Camillo, fundadores deste jornal, juntou-se a nós, tal qual o universo pretendia, para nossa tarde de Café do Mês.
Sorriso presente, simpatia que transborda, Adinan fez um intervalo entre os compromissos na agência de publicidade e as atividades docentes para pausa em nossa companhia.
Num ambiente de memórias, as lembranças do tempo em que era colaborador de Lurdinha Camilo na coluna social deste jornal, assinada por ela, encheu a sala de alegria. Passagens no mínimo divertidas que só se sabe quando o véu dos bastitores são revelados. O moço foi até alvo das Pimentas da Lurdinha, e lembrou bem que nunca foi convidado para os jantares que a colunista organizava junto com o chef Henrique, no inicio de cada estação de ano, inaugurando a mudança de cardápio do restaurante, reunindo convidados que Lurdinha escolhia a dedo. Mas, se podemos compensar, é a segunda vez que participa dos nossos cafés (relembre aqui).
Henrique nos recebeu com uma mesa posta para café, no meio do salão. Foi impecável na escolha do menu para acompanhar o café. Para a primeira xícara, bruschetta de tomatinhos, picles de uva e ricota defumada no pão de brioche. No segundo momento, um entremet de frutas vermelhas. Uma sobremesa de elaboração requintada, que esconde várias camadas de texturas diferentes oferecendo, por si só, uma experiência sensorial. Imaginem a festa de sabores que acontece na boca quando harmonizada com um café de altíssima qualidade, rico em aromas e notas de sabor. Vale lembrar que tudo é preparado na cozinha maravilhosa do chef Benedetti e faz parte do cardápio da casa.
O Café do Mês de junho do nosso Clube de Assinaturas é uma variedade desenvolvida pelo IDR Paraná - IRP107. Uma cultivar que surgiu a partir do cruzamento das variedades IAPAR 59 e Mundo Novo. Produzido por Juarez Colatino, o café veio de São Jerônimo da Serra, norte do Paraná. Uma região de clima e altitude propícia que produz grãos de qualidade. Entretanto, estes grãos chegaram até nós pela Grassy Café, uma toreffação de Ribeirão Preto (SP). Na xícara, esses grãos trazem notas de frutas secas, rapadura, caramelo.
A French Press, ou prensa francesa, foi o método escolhido para o preparo deste café. Apesar da origem, foi um italiano que patenteou essa jarra, que leva um embolo e prepara um café sob total infusão. Os grãos, com moagem mais grossa, são colocados no fundo da jarra que, ao receberem água quente, permanecem por minutos preciosos desprendendo óleos essenciais, produzindo uma bebida de corpo denso e textura aveludada. Poderíamos dizer que tem um luxo que o coado, com seu filtro implacável, nos impede de apreciar. Um ritual que requer apenas café, água e alguém que faça a mágica, com paciência e sem pressa. A magia se completa quando o cronômetro avisa e o êmbolo é baixado com delicadeza. Café servido, despreza-se o fundo da xícara por eventuais fines - o “pozinho” mais fino que resolveu participar da festa.
Mônica mais uma vez cuidou do preparo do café. Numa primeira rodada uma receita mais elaborada de 9 minutos de infusão, com direito a receitinha impressa para os convidados levarem para casa. Na segunda, a receita mais usada, com 4 minutos.
Um café brasileiro, torrado por uma família italiana, preparado numa cafeteira de nome francês patendeada por um italiano, servido com uma sobremesa francesa, feita por um chef de descendência italiana, tal qual as anfitriãs desta coluna, numa casa italiana. Parece que o universo sabia bem o que estava fazendo para acolhermos o convidado naquela tarde fria de final de outono.
Ollivia Gastronomia
Av. João Pinheiro, 1135, Centro - Poços de Caldas (MG)
Reservas pelo WhatsApp (35) 9 9146-0012
@olliviagastronomia
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