A maravilha sinuosa

Por Texto e Fotos: Marcelo Leme
4 Min

Bom Jardim da Serra e a Serra do Rio do Rastro não oferecem excesso, mas uma intensidade de sentidos oriundos da natureza e do agradável povo que por lá reside. Não há pressa. Há paisagem, clima e presença

Paisagens estão naturalmente distribuídas por todos os cantos do Brasil. Em Santa Catarina há várias delas. Bom Jardim da Serra, pequeno município cravado no alto da Serra Catarinense, guarda uma das paisagens mais impactantes do país; e que oferece uma experiência sensorial única. Ali, onde o vento pesa e o frio pinta geadas no inverno, - que não vi durante o último mês de abril - a natureza oferece distintas sensações. A cidade, pequena e acolhedora, serve como portal para um dos cenários mais impressionantes da América: a Serra do Rio do Rastro.

Bom Jardim da Serra presente nesse meio de paisagens que se abrem aos poucos, entre campos ondulados, araucárias aos montes que se perdem em florestas e o céu vasto que parece sempre em movimento, com as nuvens transitando não tão distantes. Por ali, macieiras reluzem vermelhas e esverdeadas. Por ali, pinhões se espalham pelo solo assombreado. O redor bucólico transmite uma curiosa sensação de isolamento que não assusta e nem pesa, mas aquieta. A cidade tem algumas coisas a oferecer, como chalés e pousadas confortáveis; e restaurantes locais que se gabam de ofertar o que a própria região produz. A farofa de pinhão e o entrevero, por exemplo, foram surpreendentemente saborosos.

A poucos quilômetros da cidade, a Serra do Rio do Rastro se revela como um interessante espetáculo. A estrada, com suas 284 curvas, desce a montanha como um traço desenhando linhas, conectando a serra ao planalto com sentido ao litoral. Vista de cima, uma sucessão de voltas que se perdem na neblina - e em um dia de sorte, podemos vê-la limpa, mudando à medida que a luz movimenta, dando a impressão que a paisagem respira. Nos dias claros, o horizonte se abre em camadas, revelando vales profundos e uma imensidão verde que se dissolve ao longe. Já quando a neblina toma conta, tudo se transforma: o visível se reduz, e o caminho, imagino, ganha um ar quase onírico com faróis que se assemelham a fantasmas cruzando a cerração.
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Diante cânions, campos de altitude e uma estrada que serpenteia em dezenas de curvas, o local nos força à contemplação e ao silêncio quebrado unicamente pelo som da mata, de águas de minas escorrendo e grafitando nas rochas, e dos veículos vagarosos, cujos motoristas tementes e impressionados, não fazem outra coisa a não ser dividir atenção entre a perigosa estrada sinuosa e a enormidade de belezas naturais ao redor do curso, em cima e em baixo, a frente e atrás, subindo e descendo. Os mirantes, que são muitos, ao longo da serra fazem nos considerar pausas. Uma foto. Um respiro. Mais uma imagem guardada, no celular e na memória. Não importa em qual ponto paramos, toda imagem se revela bela.
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Ali, o tempo desacelera como os viajantes freando. O vento constante, o silêncio entrecortado por poucos sons e a vastidão do cenário criam uma experiência que vai além do visual, sendo sensorial. É viver e sentir a dimensão do lugar. Diferente de destinos urbanos ou litorâneos, Bom Jardim da Serra e a Serra do Rio do Rastro não oferecem excesso, mas uma intensidade de sentidos oriundos da natureza e do agradável povo que por lá reside. Não há pressa. Há paisagem, clima e presença. É um território onde o viajante se reconecta com o essencial: o frio no rosto, a noite estrelada, o cheiro da terra úmida pela manhã e o horizonte sem fim. Ao ir, é preciso percorrer montanhas, encarar trilhas ou simplesmente escolher bem onde olhar, como a imponente Pedra do Funil há alguns quilômetros da cidade. Imperdível! Eis outro destino que nos faz realmente considerar um retorno, porque algumas paisagens não se esgotam na primeira visita. Porque bom mesmo, é revisitar curvas.
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Marcelo Leme - Roteirista de cinema e curador
Instagram: @marceloafleme