01/07/2021 às 15h47min - Atualizada em 01/07/2021 às 15h47min

Só me aceitam como poeta porque tenho emprego padrão

Tadeu Rodrigues, advogado, escritor e apresentador do podcast Rabiscos - @tadeufrodrigues
tadeufrodrigues@gmail.com

Sou advogado. E no meio jurídico na minha cidade, interior de Minas Gerais, sou o advogado que escreve poesia, o poeta. A isso me felicitam pessoas que não fariam o mesmo fosse eu “apenas” poeta. E digo com tranquilidade, pois aos meus amigos e amigas que optaram por viver da literatura, ainda mais de poesia, sobra-lhes a função lírica como pecha; como se não pudesse ser essa uma opção. E não ignoremos o fato de eu ser branco, classe média, com uma graduação.
O que torna um hobbie respeitado do meu ofício, é visto à boca torta dos outros. Em especial quando falamos das poetas e dos poetas militantes políticos, lutadores por causas sociais, da periferia, que encontram a saída no labor bonito de engendrar palavras. Fácil dizer o porquê: dinheiro.
Por aqui, não é raro você dizer que trabalha com a escrita ou falar de alguém que o faça, que logo a pergunta vem: ele/a ganha dinheiro com isso?
No mundo ideal, isso deveria ser rechaçado. Poetas deveriam ser exaltados. Deveriam vir antes. Porque, a eles, a função (ou disfunção) de interpretar o caos inerente ao ser humano. À arte se incumbe o prazer, a reflexão, a saída.
 
O hegemonismo capital sobre nós mortais, que prezamos pela poética de ser, a tantos se empregam também aos músicos, pintores, atores, atrizes etc. Só é medida a aceitação quando se ganha dinheiro a ponto de a sociedade ver o que ela entende como vencer; quando carros, casas, viagens e marcas são ostentados.
O rebaixamento estrutural social imposto ao artista beira quase à indiferença, em um esboço lamentável bradado, por vezes, por quem consome arte - e às vezes arte cara, blasé - como se a artista e o artista, alguém sem direito, vagabundos que querem viver em horas vagas, como alguém prejudicial.
 
Ao direito, que advogo em profissão aceita, meus pequenos préstimos de ferida social aberta; que querem impor ternos e formalidades.
À poesia, aos poetas e às poetas, minha vida.
 
Por Tadeu Rodrigues - advogado e poeta
 
 

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