21/05/2021 às 15h39min - Atualizada em 21/05/2021 às 15h39min

Artigo - "Comerciantes de Poços de Caldas"

Por Antônio Luiz Fontela - Advogado

O farmacêutico Cirilo já dizia: “minha farmácia está no melhor quarteirão do mundo. Pois Poços é a melhor cidade do mundo. A rua Assis é a melhor de Poços e este quarteirão é o melhor da rua Assis”. Eu, moleque, concordava com ele e sentia orgulho. Também naquele quarteirão os meus queridos velhos encostavam diariamente os umbigos no balcão, batalhando com alegria. Comerciantes por vocação. Amigos dos fregueses. Depois que eles deixaram o corpo e fizeram a viagem para o etéreo, nós, os filhos, não conseguimos manter a loja. Não era a nossa vocação. Foi mais uma separação regada a lágrimas. Ah! Que saudades daqueles tempos dos velhos comerciantes: Ponto Ajour, dos irmãos Pomárico, Casa Acôncia, Loja Paratodos, Loja Brasileira, do “seu” Américo Chagas, Armazém do Manoel Acúrcio, o “seu” Mané das Garrafas, Armazém Brasil, onde se vendia de tudo, até cordas para o meu violino, Jeca Tatu, do “seu” Vitor Marchesi, que labutava de segunda a segunda, Cinelândia, do Diamantino Rosa, trocadilhista e que colocava o LP do comediante Zé Vasconcelos para o povão ouvir, nos serviços de alto-falante da Fermoi, frente ao saudoso Bar Maracanã, da família Lemos, pai, mãe e filhos na labuta diuturna, Rádio Instaladora, Sapataria Gaiga, Casa Paulo, fundada pelo “seu” Paulo Oliveira e depois comandada pelo Gérsio e pelo Carlão, Casa Pereira, dos irmãos Joaquim e Maneco, Casa Dois Irmãos, Camisaria Luz e tantas outras casas que hoje existem apenas na memória. Padarias e leiterias, como a do “seu” Guerino Maran. Sorveterias, como a Mimi, bar Cruzeiro, bar Alaska, neste último, o melhor picolé de vinho do mundo. O tempo é implacável. Vi, com tristeza, ser encerrada as atividades de, talvez, o mais velho dos estabelecimentos comerciais da cidade, que tinha o romântico nome de SELARIA. A Selaria Silva, fundada em 1925 pelo senhor Francisco Silva, mais conhecido como Chiquinho Seleiro. Êta homem trabalhador! Lembro-me dele em todos os natais. Era ali que estavam os brinquedos que eram colocados em nossos sapatos durante a noite mágica. Menino de calças curtas, escolhia os presentes, os pais sempre bem recebidos pelo “seu” Chiquinho. Batiam papos intermináveis discutindo os preços, embora vender não fosse o mais importante. O mais importante, para os antigos comerciantes, era receber bem o amigo que, por acaso, também era freguês.
Esse mundo ficou para trás. Hoje a tecnologia dominou o comércio. Todos estamos mais pobres, não de dinheiro, mas de amizades. Tudo agora é virtual. Falta o calor humano, que era transmitido por pessoas como “seu” Cirilo, “dona” Lazinha e “seu” Zezinho, “seu” Chiquinho, Vitor Marchesi, Toninho Acôncia e tantos outros. Todos em outro plano. Talvez na mesma rua, ou mesmo quarteirão.
 
 
 

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