23/04/2021 às 16h10min - Atualizada em 23/04/2021 às 16h10min

40 anos sem Eduardo Luciano Marras

“Sr. Marras” na década de 1930, em um de seus estúdios, pintando um quadro
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Uma homenagem de seu filho primogênito, Eduardo Luciano Marras Júnior (titi)
 
Há exatos 10 anos, escrevi a este conceituado jornal um pouco da trajetória do saudoso Eduardo Luciano Marras, e desde então se passaram 30 anos de seu falecimento. Uma breve homenagem que faço a cada 10 anos a este brilhante e vitorioso homem - e para que os jovens leitores de agora, e mesmo os leitores em geral, conheçam e/ou relembrem seus importantes e notórios feitos. A geração mais jovem infelizmente não teve a prazerosa oportunidade, como tiveram os mais adultos, de conhecer pessoalmente o talentoso empreendedor, artista e empresário.
 
Italiano, natural de Turim, nascido em 06/01/1906, de família humilde, porém, com muita determinação ao trabalho, Eduardo cursou a Academia de Belas Artes de Turim, onde formou-se retratista e caricaturista, daí partindo para vários países mundo afora, principalmente na Europa e América, onde montava seus ateliês itinerantes e expunha e comercializava seus quadros e obras de arte. Em uma de suas rotas estava o Brasil, país que ao visitar, muito o agradou, de tal sorte que resolveu estabelecer-se e fixar residência aqui.
Com sua visão arrojada e sempre modernista, somada à experiência adquirida em suas inúmeras viagens mundo afora, o “Sr. Marras” (como era chamado pelos conterrâneos), em seu novo empreendimento inédito no Brasil, já fez história: foi ele o primeiro empreendedor a trazer e importar para o Brasil as primeiras “máquinas de fliperama e arcades americanos”, onde montou lojas no Rio de Janeiro e aqui em Poços de Caldas - a primeira loja na cidade funcionou no início da década de 1940, no Palace Hotel, num salão interior, exatamente onde atualmente encontra-se a piscina (nesse local, originalmente, havia um grande salão, conforme registra fotos históricas em nosso poder).


                     
A paixão por Poços de Caldas
 
Na verdade, o “Sr. Marras” veio a Poços para montar seu atelier, em caráter temporário, atraído também, na época, pela fama de Poços como cidade turística, pelos cassinos e pelas águas termais. Mas a beleza, estrutura e o clima agradável da cidade fizeram com que ele decidisse se estabelecer aqui em caráter definitivo, tanto que além do salão de diversões eletromecânicas (fliperama), montou também, no Palace Hotel, um sofisticado estúdio, onde pintou importantes celebridades que frequentavam Poços na época dos cassinos, inclusive o ex-presidente Getúlio Vargas.
O “Sr. Marras” era conhecido como “o pintor mais rápido do mundo” (“le peintre le plus rapide du monde”), de acordo com artigo publicado no jornal francês “Toute la Terre”, em 1931, e ainda no jornal americano “Society Talk” - New Orleans (“lightning artist complete sketch in 15 minutes”). Também o jornal europeu “O Malho”, na edição de 30/11/1939, destaca: (“Marras - um virtuose du pastel”). Enfim, inúmeros artigos em jornais mundo afora ao longo do século XX, sendo que vários deles já foram digitalizados e se encontram na internet.
Vale destacar que em sua excepcional criatividade, e espírito empreendedor, o Mestre ainda trouxe e apresentou no Brasil o incrível e fantástico “circo de pulgas”, onde pulgas (isso mesmo!) andavam de bicicleta, puxavam carruagens e até jogavam futebol. Trata-se de um circo miniaturizado onde pulgas são amarradas com técnica especial aos micro equipamentos, e com as mesmas levantam e puxam pesos superiores a duas mil vezes o seu peso, o resultado é impressionante! (veja mais na internet em: “Folha da Noite”, 17 de novembro de 1937). O Mestre chegou a fazer apresentações desse circo, aqui em Poços, no Palace, onde impressionou em demasia a geração daquela época.
 
“Sr. Marras”: progresso e diversões para nossa cidade
 
Uma vez que resolveu ficar em caráter definitivo em Poços de Caldas, “Sr. Marras” adquiriu um grande terreno na Rua São Paulo, 83, próximo ao Palace hotel, onde fez erguer um edifício imponente e arrojado para então montar a casa de diversões eletromecânicas e fliperama, em prédio próprio que funciona ATÉ OS DIAS DE HOJE, porém modernizada (diversões eletrônicas, fliperama Titi). Diga-se que que o fliperama ali funciona desde 1944, administrado exclusivamente por mim, Eduardo, com verdadeira devoção pelo ramo de fliperama (desde a tenra infância, eu já trabalhava com meu pai).
“Cine Theatro Vogue”: cinema e teatro marcaram uma geração inteira na cidade
 
E ainda, nesse mesmo grande edifício, em anexo, o “Sr. Marras” inaugurou em 1945 o luxuoso “Cine Theatro Vogue”, um grande e elegante cinema e teatro com dois andares e capacidade para 1.240 pessoas, com equipamentos de som e projeção dos mais modernos na época, sendo que, como desenhista, ele próprio arquitetou e mandou executar a decoração interna e externa (fachadas) do prédio do cine e edifício Vogue. Ele mesclou a sua arte com o estilo semi neoclássico, com especial destaque aos dois enormes vitrôs, com cerca de sete metros cada, com desenhos e vidros coloridos, montados à mão, aos dois lados do palco, além do estilo neorama, na fachada frontal do edifício Vogue, obras que impressionam pela beleza e grandiosidade - sendo que as mesmas se encontram até hoje, preservadas, em estado original e em perfeitas condições -, tanto é que o imponente e histórico prédio do Cine Vogue se encontra junto ao município, em grau de preservação “P-2”, bem como preservados os equipamentos de som e projeção da época.
O Cine Vogue, indubitavelmente, marcou uma geração inteira com os seriados, as matinês, as “trocas de gibis”, que aconteciam nos finais de semana nas portas do cinema na década de 1950, além dos grandes shows, formaturas, filmes, enfim, acontecimentos que perpetuaram o Cine Vogue em nossas mentes.
O “Sr. Marras” também assumiu a direção do “Cine Teatro Alumínio”, que existia na Avenida Santo Antônio, e também a direção do “Cine São Luiz”, que existia na Praça Pedro Sanches, em 1976, o qual administrou até o seu falecimento, em 1981.
 
Mas outra de suas obras ainda estava por vir: em pleno auge do cinema, construir um novo, moderno e majestoso cine teatro de última geração. Mais um imponente edifício, com cerca de 3 mil metros quadrados, só para abrigar as instalações de um mega cine teatro foi seu projeto mais ousado e dispendioso, que consumiu 10 anos de construção e, na época da inauguração, foi tido como um dos maiores, melhores e mais modernos cinemas do Brasil! Falamos do “Cine Teatro Ultravisão”, cinema de renome e de prestígio, tal como foi o “Cine Theatro Vogue”, enfim, casas que apresentaram grandes eventos, sendo que o Ultravisão foi inaugurado em 1979 - sem dúvida, mais um orgulho para todos nós!
 
“De traços finos, montado em uma Garelli, Marras exibia uma vivacidade capaz de fazer inveja a muitos jovens”, escreveu num artigo exclusivo o diretor do Brand-News, em agosto de 1979


 
 
Não bastando tudo isso, o Sr. Marras cativava as pessoas pela sua humildade; era um homem justo, de uma inteligência extraordinária, sempre acreditando em DEUS (assim como este subescritor), otimista, enfim, é como bem disse o jornalista Odair Camillo, em seu Jornal Brand-News, ano IV, número 54, de 28 de agosto de 1979, numa reportagem exclusiva com o “Sr. Marras”: “QUEM VÊ AQUELE SENHOR, DE TRAÇOS FINOS, MONTADO EM UMA GARELLI, EXIBINDO UMA VIVACIDADE, CAPAZ DE FAZER INVEJA A MUITOS JOVENS, EMBORA JÁ TENHA CHEGADO AOS 70 ANOS, TALVEZ DESCONHEÇA QUE ALI ESTÁ UM DOS MAIORES PINTORES E CARICATURISTAS QUE O MUNDO ARTÍSTICO JÁ CONHECEU...”. E eu, Eduardo Luciano Marras Júnior, subscritor deste artigo, tenho a imensa alegria de ser filho desse magnífico homem, digo ainda mais: além de um grande pintor e empresário, um pai esplêndido, que soube me educar sempre com o diálogo, é um exemplo em minha vida. Um empresário atuante, que muito contribuiu com a cidade, de tal sorte que numa justa e merecida homenagem, a então competente Câmara de Vereadores de Poços de Caldas fez, em 1981, a Lei número 3.151, e que foi sancionada pelo então prefeito Dr. Ronaldo Junqueira, em 08/10/1981, que denomina de “Avenida Dr. Eduardo Luciano Marras” a principal avenida do conjunto habitacional Dr. Pedro Afonso Junqueira (antiga Avenida A), um reconhecimento da comunidade pelos relevantes empreendimentos que ele fez pela nossa cidade.
 
Meu pai faleceu no dia 24 de abril de 1981, às 13h10, portanto hoje se completam 40 anos dessa perda irreparável, mas, como dizem alguns cientistas, o gene é imortal, e seus filhos e netos, espelhados em seu exemplo, administram suas obras com carinho. Na verdade administram e ampliam suas obras e empreendimentos, como se pôde ver no caso de implantações na cidade,
de casas noturnas ligadas ao entretenimento, como a famosa “Over Night Discoteca”, e outras de nossas organizações ligadas ao entretenimento, nosso ramo.
 
 
Compromisso com a honestidade e a verdade: um legado pioneiro, um exemplo em minha vida


 
 
As obras de meu pai, partiram de um ideal dele, que é, acima de tudo, uma contribuição indubitável para o entretenimento de gerações de conterrâneos e turistas, que reitero, há quase 80 anos nos visitam e se divertem em nossos empreendimentos.
A vida do “Sr. Marras” foi vitoriosa, sobretudo por ter absoluto compromisso com a honestidade e a verdade, características que homens de bem não abrem mão, o que, reitero, torna meu pai “um exemplo em minha vida.”
Assim, concluímos que ele conquistou a vitória de uma empresa, o acerto de uma administração, no entanto seu falecimento só aumenta a nossa responsabilidade de manter e ampliar seus empreendimentos, como aliás, temos feito incansavelmente nesses últimos 40 anos.
 
Ao avaliar o legado pioneiro de meu pai, tenho imensa admiração e orgulho de sua vida e de todos seus empreendimentos, seja pelos ateliês mundo afora, pelos seus espetáculos de arte, pelos cinemas, seja pelo pioneiro fliperama no Brasil, onde tudo começou, pois afinal, são quase 80 anos de empreendimentos vitoriosos e reconhecidos a nível nacional, e quem sabe, internacional.
Tendo como bases em minha vida, a fé em Deus e os exemplos de meu pai, sou um homem feliz e bem sucedido, “com a graça de Deus”, bem como me foi um pai tão bom, que hei de amá-lo para sempre e considerá-lo como meu segundo Deus.
 
Eduardo Luciano Marras Júnior, 24 de abril de 2021

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